maio 14, 2026

O corpo fala: a escalada da Violência de gênero

Imprensa Podemos

A violência de gênero não surge de forma abrupta; ela é um fenômeno complexo, que se manifesta e se intensifica a partir de uma tolerância cotidiana e de um silêncio muitas vezes imposto às vítimas. Experiências acumuladas no sistema de justiça revelam uma realidade dolorosa: o feminicídio, em sua forma mais brutal, é apenas o ápice de uma série de agressões físicas, emocionais e psicológicas que se acumulam ao longo do tempo. Por trás das estatísticas frias, há histórias de vidas interrompidas, famílias desestruturadas e um futuro roubado, impactando crianças que, em muitos casos, se tornam órfãs de mãe. A dor e o medo frequentemente silenciam as vítimas, que se agarram à esperança de mudança, ignorando os sinais de alerta que culminam em tragédias anunciadas, mostrando que a sociedade ainda falha em proteger quem mais precisa.

A face oculta da violência e o silêncio das vítimas

A jornada da mulher vítima de violência até o sistema de justiça é, na maioria das vezes, marcada por um longo período de sofrimento e silêncio. Raramente a vítima buscará ajuda após a primeira agressão física. Impulsionadas por uma série de fatores – como o sonho de um relacionamento duradouro, a preocupação com os filhos, o receio da exposição social, o medo da solidão e a crença em promessas de mudança por parte do agressor –, muitas mulheres suportam um escalonamento gradual da violência. Esse processo de tolerância e esperança infundada cria um ciclo perigoso, onde agressões verbais e psicológicas frequentemente precedem e se intercalam com ataques físicos cada vez mais severos, culminando em lesões graves, ou, tragicamente, em feminicídio.

O ciclo da agressão e as promessas não cumpridas

A dinâmica da violência de gênero é profundamente complexa e muitas vezes cíclica, enraizada em padrões de controle e desvalorização. No ambiente doméstico ou em relações íntimas, a violência nem sempre começa com um golpe físico. Profissionais do direito e especialistas observam que, antes das marcas visíveis, muitas mulheres relatam sofrer violência emocional e psicológica severa, expressa por meio de xingamentos, comentários depreciativos, comparações inadequadas e uma constante tentativa de diminuí-las. Fatos como esses são frequentemente suportados em nome da manutenção do relacionamento ou da família, alimentando uma esperança vã de que a situação se reverterá.

O agressor, por sua vez, muitas vezes manipula a vítima com promessas de que a violência não se repetirá, alimentando um ciclo de arrependimento aparente e nova agressão. Essa montanha-russa emocional dificulta a percepção da vítima sobre o perigo real e a impede de romper com o relacionamento. As redes de apoio informais, como amigos e familiares, também podem, por vezes, falhar em identificar ou intervir nesse processo, seja por desconhecimento dos sinais, por crenças machistas arraigadas ou por medo das repercussões. O resultado é um isolamento progressivo da vítima, que se sente cada vez mais sozinha e desamparada, enquanto a violência escala de forma quase imperceptível, mas constante, até um ponto sem retorno. As redes sociais, em especial, nos trazem imagens cotidianas, quase que naturalizadas, com relatos de agressões severas, perseguições, intimidações, cerceamento da liberdade e feminicídios, ora com motivação de rejeição, ora pela incapacidade emocional de se relacionar. Muitos homens da atualidade demonstram baixíssima tolerância à rejeição, não sabem lidar com frustração e foram (mal) educados para impor suas vontades, sem qualquer capacidade de seguir a vida em caso de término de relacionamento ou discordância de suas vontades, ou, ainda, quando suas expectativas não são correspondidas. O padrão é repetitivo e consistente.

Machismo estrutural: da desqualificação ao feminicídio

A persistência da violência contra a mulher está intrinsecamente ligada a uma cultura machista e patriarcal, que ainda permeia diversas esferas da sociedade. Exemplos cotidianos, por vezes naturalizados, demonstram como o desrespeito e a desqualificação feminina podem se manifestar publicamente, influenciando percepções e reforçando estereótipos prejudiciais.

O impacto das falas misóginas e a tolerância social

Recentemente, a sociedade presenciou um episódio emblemático no esporte que ilustra essa cultura. Um jogador de futebol, ao se referir à atuação de uma árbitra altamente qualificada, insinuou que a mulher não deveria ocupar um espaço de tal relevância, atribuindo um suposto “erro” ao seu gênero, e não à sua competência profissional. Essa declaração, amplamente divulgada em um horário de grande audiência, não apenas desqualifica uma profissional com qualificações reconhecidas (por federações e entidades internacionais), mas também envia uma mensagem equivocada para um público vasto, incluindo as gerações mais novas. Ao questionar a capacidade de uma mulher em um espaço de destaque, a sociedade reforça a ideia de que “esse espaço não te pertence. Saia daqui!”, uma mensagem perigosa que vai além do campo de jogo e afeta a autonomia e o empoderamento feminino em diversas áreas.

O futebol, paixão nacional e um espaço simbólico de união e diversidade, onde pessoas de diferentes credos, raças e classes sociais vibram na mesma direção, deve ser um ambiente inclusivo para todos os gêneros. Declarações misóginas, mesmo que seguidas de retratações ou sanções, revelam uma mentalidade atrasada que precisa ser combatida. Essa cultura de desrespeito e desqualificação não é um fator isolado; ela incentiva e pavimenta um terreno fértil para a escalada da violência, desde agressões verbais até o feminicídio. A boca, muitas vezes silenciada pela coerção ou pelo medo, pode calar, mas as consequências físicas e psicológicas no corpo revelam as violências sofridas, seja em forma de lesões, seja em forma de doenças psicossomáticas.

A necessidade de uma mudança cultural e políticas públicas

O enfrentamento eficaz da violência de gênero exige mais do que a punição dos agressores; demanda uma profunda transformação cultural e um investimento maciço em prevenção e educação. É fundamental que essa mudança comece desde a casa e se estenda à escola, aos ambientes comunitários e religiosos, com a participação ativa do Poder Público, de todos os seus órgãos e da sociedade civil. O sistema de justiça opera com princípios como o da igualdade, que significa não apenas permitir as mulheres em todos os espaços, mas garantir a elas que sejam respeitadas, tenham oportunidades iguais e que toda forma de proteção seja assegurada para que seus direitos não sejam violados, garantindo a punição para quem os descumprir.

Políticas públicas devem ser desenvolvidas de forma coordenada e estratégica, focando tanto na proteção das mulheres quanto na reeducação dos homens. Para as vítimas, é urgente o investimento em delegacias especializadas, patrulhas de proteção, monitoramento de agressores e a ampla divulgação do sistema de medidas protetivas, visando evitar a escalada de risco. Além disso, são essenciais espaços de acolhimento, proteção e empreendedorismo para garantir a segurança e a autonomia financeira de mulheres em situação de risco, permitindo que elas e seus filhos reconstruam suas vidas.

Para os homens, historicamente moldados por um modelo machista que muitas vezes confunde vulnerabilidade com fraqueza, são necessários espaços de escuta e reflexão. Iniciativas que abordem normas de gênero, relações afetivas saudáveis e o manejo da frustração podem promover uma nova masculinidade, mais condizente com os valores de respeito e igualdade. Não se trata de promover um antagonismo entre gêneros, mas de garantir a sobrevivência e a prosperidade da própria sociedade, impactando positivamente as gerações futuras. Reduzir as vergonhosas estatísticas de violência exige uma revisão de como falamos, como criamos nossos filhos, como legitimamos espaços e como nos posicionamos diante de violações de direitos. Interferir ao mínimo sinal de violência é um dever coletivo, especialmente quando a maioria dos crimes ocorre dentro do que deveria ser um espaço de proteção: o lar.

Caminhos para uma sociedade mais justa e segura

A experiência acumulada por anos no sistema de justiça é clara: a violência contra a mulher não é um evento isolado, mas sim o culminar de uma série de tolerâncias e omissões cotidianas. Para reverter o cenário alarmante de quatro feminicídios diários no Brasil e outras inúmeras formas de agressão, é imperativo que a sociedade e o Estado ajam de forma integrada e proativa. A transformação social exige educação permanente, que desconstrua padrões machistas e promova o respeito desde a infância, em todos os ambientes. É crucial que orçamentos sejam destinados e políticas públicas sejam efetivamente implementadas, com planejamento institucional e ampla participação social, incluindo a dos homens, para que o Estado de Direito seja uma prática civilizatória e não apenas um ideal abstrato. Somente assim poderemos construir um futuro onde a igualdade e a segurança sejam realidades para todas as mulheres, garantindo que o corpo não precise mais gritar o que a boca foi forçada a calar.

Compartilhe este artigo e ajude a conscientizar sobre a gravidade da violência de gênero e a urgência de ações preventivas e de apoio às vítimas. Juntos, podemos construir uma sociedade mais segura e igualitária.

Fonte: https://www.podemos.org.br

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