fevereiro 9, 2026

Liquidações do Banco Master e Reag expõem crise bilionária

SP - OPERAÇÃO COMPLIANCE ZERO/PF/BANCO MASTER/BRB/PRESIDENTE/AFASTAMENTO - ECONOMIA - Fachada d...

As recentes liquidações do Banco Master e Reag Investimentos, determinadas pelo Banco Central (BC), revelam um dos episódios mais graves e complexos da história do sistema financeiro brasileiro. O caso, que se desenrolou entre 2023 e 2025, expôs uma sofisticada rede de fraudes bilionárias, o uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos e até tentativas de socorro financeiro via um banco público. Paralelamente, a situação gerou tensões significativas entre instituições de controle como o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal de Contas da União (TCU), o próprio BC e a Polícia Federal (PF), acendendo um alerta sobre a fiscalização e a governança no setor. As investigações apontam para um colapso que transcende o âmbito financeiro, impactando diretamente milhões de investidores e a credibilidade das instituições.

O intricado esquema de fraude financeira

O Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, experimentou um crescimento vertiginoso ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com rentabilidade muito superior à média do mercado. Para sustentar esse modelo agressivo, que atraía um grande volume de investidores, o banco teria assumido riscos excessivos e estruturado operações destinadas a inflar artificialmente seu balanço. Enquanto isso, a liquidez real – o dinheiro disponível para honrar os compromissos com os investidores – se deteriorava rapidamente, criando um cenário insustentável que culminaria na intervenção do regulador.

Desvio bilionário e ativos fictícios

O cerne da fraude, conforme investigações da Polícia Federal e relatórios do Banco Central, residia em um engenhoso esquema de triangulações financeiras que, entre 2023 e 2024, teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões. O Banco Master concedia empréstimos a empresas supostamente laranja, que por sua vez aplicavam o dinheiro em fundos administrados pela gestora Reag Investimentos. Esses fundos, então, eram utilizados para adquirir ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços artificialmente inflacionados. O Banco Central identificou seis fundos da Reag considerados suspeitos, cujo patrimônio conjunto atingia R$ 102,4 bilhões. O fluxo financeiro era circular, com o dinheiro transitando entre fundos ligados aos mesmos intermediários até alcançar os beneficiários finais do esquema.

A dinâmica de um esquema Ponzi

Para adiar a inevitável inadimplência de suas operações e manter a fachada de solvência, o Banco Master teria adotado características de um esquema Ponzi, ou pirâmide financeira. Concedia empréstimos com prazos de carência de até cinco anos e utilizava o dinheiro captado com a emissão de novos CDBs para pagar investidores antigos. A promessa de retornos exorbitantes, com CDBs oferecendo até 140% da taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) – um nível considerado insustentável pelo mercado e pelas autoridades –, foi a isca para atrair novos capitais. No entanto, com o surgimento das primeiras suspeitas sobre a credibilidade do banco em 2024, a captação de novos recursos secou, e o caixa do Master entrou em colapso, revelando a fragilidade de sua estrutura.

A tentativa de “socorro” e a intervenção regulatória

Diante da iminente crise de liquidez, o Banco Master teria buscado alternativas para evitar o desfecho. Uma das estratégias mais audaciosas envolveu a tentativa de simular operações financeiras para insuflar seu balanço e, posteriormente, tentar diluir seus problemas em uma instituição pública. A intervenção do Banco Central foi crucial para barrar essas manobras e proteger o sistema financeiro.

Simulação de venda ao Banco de Brasília (BRB)

Em uma tentativa desesperada por liquidez, o Banco Master simulou a compra de uma carteira de crédito no valor de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno. Contudo, essa operação existia apenas no papel, sem qualquer pagamento ou concessão de crédito real. Uma análise minuciosa dos CPFs da carteira por parte do Banco Central revelou que as operações eram fictícias. Mesmo assim, a mesma carteira inexistente foi supostamente revendida ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões, após uma manipulação da taxa de juros. Em setembro de 2025, o Banco Central interveio e barrou a tentativa de venda de parte do Banco Master ao BRB, que, segundo a investigação, buscava fundir balanços para diluir a fraude em um banco público, utilizando recursos do Tesouro.

A liquidação e o papel da Reag

O agravamento da situação levou o Banco Central a impor restrições severas ao Banco Master, limitando sua captação a 100% do CDI, o que paralisou seu crescimento e sua capacidade de atrair novos recursos. Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já vinha cobrindo CDBs vencidos por meio de uma linha emergencial, um sinal claro da gravidade da crise. O controlador do banco tentou aportar recursos com a venda de ativos pessoais, mas sem sucesso. A liquidação do Banco Master foi decretada quando a instituição não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais de seus compromissos.

A gestora Reag Investimentos emergiu como peça central na sustentação do esquema fraudulento. Seus fundos são suspeitos de terem facilitado a constituição de empresas laranja para emprestar a outros fundos e de terem valorizado ativos fictícios, pulverizando os recursos obtidos de forma ilícita. Após a segunda fase da “Operação Compliance Zero”, do Banco Central, a própria Reag Investimentos teve sua liquidação decretada, sendo vista como um desdobramento direto e inevitável do caso Master.

Repercussões institucionais e o impacto nos investidores

Embora o Banco Master representasse apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro nacional, sua liquidação desencadeou uma série de tensões e questionamentos que extrapolaram o âmbito regulatório, envolvendo órgãos públicos de controle e gerando um impacto significativo sobre os investidores.

Tensões entre o Banco Central e outros órgãos

A liquidação do Master gerou questionamentos simultâneos no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Congresso Nacional, que buscaram entender as decisões técnicas do Banco Central e a extensão da fiscalização. Houve um acordo entre o BC e o TCU para a inspeção de documentos, desde que não comprometesse o sigilo bancário e as prerrogativas da autoridade monetária. O ministro Dias Toffoli, do STF, que assumiu as ações judiciais relacionadas ao caso, chegou a tentar uma acareação envolvendo o diretor de Fiscalização do BC, mas recuou, autorizando apenas a coleta de depoimentos adicionais de Daniel Vorcaro e do ex-presidente do BRB. Toffoli também determinou que todo o material apreendido pela Polícia Federal na “Operação Compliance Zero” ficasse custodiado no STF, para então autorizar sua análise pela própria PF, com apoio da Procuradoria-Geral da República.

O desafio do ressarcimento a milhões de clientes

Com a liquidação do Banco Master, a responsabilidade de ressarcir os cerca de 1,6 milhão de clientes recaiu sobre o FGC, fundo formado por recursos dos próprios bancos. A estimativa é que o FGC precise desembolsar aproximadamente R$ 41 bilhões, o que representa cerca de um terço do patrimônio do fundo. Este valor configura o maior resgate da história do FGC, que tem um limite de cobertura de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. No entanto, o pagamento depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante, processo que ainda não havia sido finalizado dois meses após a liquidação, gerando ansiedade entre os investidores. Importante ressaltar que os fundos da Reag não contam com a proteção do FGC, embora os cotistas possam optar por outra gestora para administrar seus recursos. Além disso, 18 fundos de pensão estaduais e municipais que investiram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras não serão ressarcidos, pois esses tipos de investimento não são cobertos pelo FGC.

Um marco para a regulação financeira brasileira

O colapso do Banco Master e da Reag Investimentos não é apenas um caso isolado de fraude, mas um evento que tem o potencial de se tornar um divisor de águas na supervisão e regulação do mercado financeiro brasileiro. Suas profundas repercussões já começam a moldar novos debates e a impulsionar a necessidade de reformas estruturais.

Lições e o futuro da supervisão bancária

O episódio expôs falhas significativas de fiscalização, o uso indevido de fundos de investimento para fins ilícitos e a pressão exercida sobre as instituições reguladoras e de controle. O escândalo levantou sérias dúvidas sobre a eficácia das auditorias independentes e das agências de rating, que até então atestavam a saúde financeira do Banco Master, bem como sobre os limites da supervisão financeira. O caso Master-Reag deve servir como uma referência crucial para futuras mudanças regulatórias e para a intensificação do debate sobre governança, transparência e responsabilidade no mercado financeiro, visando fortalecer a proteção aos investidores e a estabilidade do sistema como um todo.

Para se manter informado sobre as últimas regulamentações e garantir a segurança de seus investimentos, acompanhe as análises especializadas e as notícias do setor financeiro.

Fonte: https://jovempan.com.br

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