maio 14, 2026

Brasil e a lacuna nas laterais após décadas de estrelas

© Getty Images

A história do futebol brasileiro é intrinsecamente ligada à maestria de seus laterais brasileiros. Desde os primórdios das Copas do Mundo, a Seleção Brasileira se destacou pela qualidade ímpar de seus defensores de flanco, capazes de aliar solidez defensiva a uma inegável vocação ofensiva. Nomes como Djalma Santos e Nilton Santos, pilares da conquista de 1958, estabeleceram um padrão de excelência que perdurou por décadas. Contudo, nos últimos anos, a busca por jogadores que preencham essa posição com o mesmo brilho histórico tornou-se um dos maiores desafios para os técnicos da seleção, gerando debates e preocupações entre torcedores e especialistas sobre a real capacidade do Brasil de formar novos talentos para o setor.

A era de ouro dos laterais brasileiros

O Brasil construiu sua hegemonia no futebol mundial também sobre a base de laterais que revolucionaram a forma de jogar. Não eram apenas defensores, mas verdadeiros arquitetos de jogadas e atacantes adicionais, com uma capacidade singular de leitura de jogo e infiltração no campo adversário. Essa dualidade, que mescla a disciplina tática com a inventividade brasileira, tornou a posição de lateral sinônimo de excelência na amarelinha, um elemento distintivo que diferenciava a Seleção de seus rivais globais.

Os pioneiros: Djalma e Nilton Santos (1958, 1962)

A jornada para o primeiro título mundial em 1958 foi pavimentada, em grande parte, pela genialidade de Djalma Santos na direita e Nilton Santos na esquerda. Nilton, conhecido como “Enciclopédia do Futebol”, foi um precursor, sendo um dos primeiros a subir ao ataque com frequência e efetividade, criando superioridade numérica e surpresa para os adversários. Sua visão de jogo, técnica apurada e capacidade de desarme fizeram dele um jogador completo e à frente de seu tempo. A lenda conta que ele desafiou ordens táticas em 1958 para avançar e marcar um gol contra a Áustria, uma ousadia que inspirou gerações e demonstrou a capacidade de inovação tática dos jogadores brasileiros.

Do outro lado, Djalma Santos era a personificação da regularidade e da perfeição técnica. Sua marcação impecável, cruzamentos precisos e rara capacidade de ir à linha de fundo sem comprometer a defesa o consagraram como um dos maiores laterais direitos de todos os tempos. Sua presença era uma garantia de segurança defensiva e uma fonte constante de perigo ofensivo. Juntos, esses dois ícones não apenas ajudaram o Brasil a conquistar seu primeiro e segundo títulos mundiais (1958 e 1962), mas também definiram um novo modelo para a função, onde o lateral era tão crucial para a construção ofensiva quanto para a solidez defensiva, estabelecendo um padrão difícil de ser igualado.

Legado e continuidade: Carlos Alberto Torres e a perfeição de 1970

A influência desses pioneiros se estendeu às gerações seguintes. Carlos Alberto Torres, o “Capita” do tricampeonato de 1970, elevou a arte de ser lateral direito a um patamar ainda mais alto. Capitão de uma das maiores equipes da história, sua liderança e técnica eram inquestionáveis, combinando a força defensiva com uma inteligência tática apurada para apoiar o ataque. Seu gol contra a Itália na final, após uma jogada coletiva magistral, é um dos mais icônicos da história das Copas, exemplificando a liberdade e a capacidade de finalização que a posição permitia aos craques brasileiros. Na década de 80, Júnior, o “Maestro”, também brilhou na lateral esquerda da lendária seleção de 1982, exibindo técnica refinada, inteligência tática e uma impressionante capacidade de participar da criação de jogadas, consolidando a tradição de laterais-artistas.

A era moderna: Cafu e Roberto Carlos (1994, 2002)

O final do século XX e início do século XXI testemunhou outra dupla de laterais que marcou época: Cafu e Roberto Carlos. Campeões mundiais em 1994 e 2002, eles representaram o ápice da modernização da posição, combinando físico, técnica e uma mentalidade ofensiva implacável. Cafu, o lateral-direito mais vitorioso da história do futebol, era sinônimo de garra, fôlego inesgotável e uma presença constante no ataque, com cruzamentos perigosos e ultrapassagens incansáveis. Seu desempenho na final de 2002, levantando a taça como capitão, é um marco de sua liderança e resiliência.

Roberto Carlos, por sua vez, redefiniu o conceito de lateral esquerdo ofensivo. Com um chute potente e preciso – a famosa “bomba” –, velocidade estonteante e uma capacidade ímpar de cobrir o flanco esquerdo, ele se tornou uma arma letal para o Brasil e para seus clubes, marcando gols de longa distância e criando oportunidades com sua velocidade. A combinação de Cafu e Roberto Carlos ofereceu à Seleção Brasileira uma vantagem estratégica inigualável, explorando as laterais com intensidade ofensiva raramente vista em outras seleções e consolidando a posição como um diferencial tático.

O declínio e a busca por novos talentos

Após a era gloriosa de Cafu e Roberto Carlos, a Seleção Brasileira enfrentou um desafio crescente: a dificuldade em encontrar laterais que mantivessem o mesmo nível de excelência. Embora houvesse jogadores de grande talento, a posição que antes era um pilar de força e criatividade começou a se tornar um ponto de interrogação, gerando preocupação sobre a continuidade do legado.

Pós-2002: a dificuldade em replicar o sucesso

Desde 2006, o Brasil tem visto uma rotação constante nas laterais. Nomes como Daniel Alves e Marcelo surgiram com grande expectativa, mostrando lampejos de genialidade e acumulando títulos por seus clubes. Daniel Alves, com sua versatilidade e capacidade de construção de jogadas, e Marcelo, com sua habilidade técnica e ousadia ofensiva, foram referências em suas posições por muitos anos. No entanto, a regularidade e a combinação da solidez defensiva com a potência ofensiva de seus antecessores nem sempre foram mantidas de forma consistente na Seleção, especialmente em momentos cruciais de Copas do Mundo. A pressão e as exigências da seleção pareciam pesar mais, ou os esquemas táticos não permitiam a mesma liberdade de outrora, resultando em atuações menos impactantes.

Causas da lacuna: Mudanças táticas, formação de base, pressão

Diversos fatores contribuem para a percepção de uma lacuna na formação de laterais. As mudanças táticas no futebol moderno, com a crescente valorização de esquemas com três zagueiros ou laterais que atuam mais como alas com menos obrigações defensivas, podem ter alterado a forma como os jovens são desenvolvidos na base. A exigência de um lateral “completo”, que domine todas as fases do jogo, pode ser um peso para a formação, dificultando a especialização necessária.

Além disso, a pressão midiática e a expectativa de que cada novo talento seja um “novo Cafu” ou “novo Roberto Carlos” criam um ambiente de comparação injusta. A formação de base brasileira, embora ainda produza muitos talentos, talvez precise de uma reavaliação específica para a posição de lateral, focando no desenvolvimento tanto da capacidade defensiva quanto da inteligência para subir ao ataque de forma equilibrada. A priorização de zagueiros ou meias na formação pode, indiretamente, desvalorizar o desenvolvimento integral do lateral, levando à escassez de jogadores multifuncionais.

Desafios atuais: a busca por equilíbrio defensivo e ofensivo

A Seleção Brasileira, nos últimos ciclos de Copa do Mundo, tem tido dificuldades em encontrar um equilíbrio perfeito nas laterais. Muitas vezes, um lateral com grande potencial ofensivo carece de solidez defensiva, e vice-versa, criando um desajuste tático na equipe. Isso tem levado técnicos a experimentar diferentes formações e a buscar soluções improvisadas, como a adaptação de zagueiros ou meias na função, o que nem sempre resulta no desempenho ideal. A busca é por um jogador que possa contribuir tanto na criação de jogadas e finalizações quanto na contenção de ataques adversários, sem comprometer a estrutura tática da equipe. Essa busca incessante reflete a importância estratégica que a posição sempre teve para o estilo de jogo brasileiro e a necessidade de preencher essa lacuna para o sucesso futuro.

O futuro da posição: Entre herança e renovação

A rica história dos laterais brasileiros, marcada por nomes lendários que ajudaram a construir as glórias da Seleção, impõe um desafio contínuo para as novas gerações. A lacuna observada nas últimas décadas não significa uma ausência total de talentos, mas sim a dificuldade em encontrar aquele perfil completo e dominante que outrora era a marca registrada do Brasil. O futuro da posição dependerá de um investimento estratégico nas categorias de base, da adaptação às modernidades táticas sem perder a essência do futebol brasileiro e da paciência para desenvolver novos talentos capazes de honrar o legado de Djalma, Nilton, Carlos Alberto, Cafu e Roberto Carlos. A esperança é que, em breve, novos nomes surjam para redefinir a excelência nas laterais e reconduzir o Brasil ao topo do futebol mundial, perpetuando uma das mais belas tradições do nosso futebol.

Qual sua opinião sobre os laterais brasileiros atuais? Você acredita que o Brasil tem novos talentos à altura de sua história gloriosa? Deixe seu comentário e compartilhe sua visão!

Fonte: https://www.noticiasaominuto.com.br

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