julho 25, 2026

Trabalhadores informais protestam novamente contra programa Tolerância Zero

© Movimento Unido dos Camelôs/Divulgação

Camelôs, vendedores ambulantes e diversos trabalhadores informais do Rio de Janeiro realizaram, neste sábado (19), mais um protesto contundente contra o programa municipal Tolerância Zero, que tem intensificado a fiscalização na orla da zona sul da cidade. A manifestação, que marcou o quarto ato consecutivo da categoria na semana, ocorreu em Ipanema, em frente ao Hotel Fasano, e teve como objetivo principal pressionar a prefeitura por diálogo e um plano de reconhecimento para a classe. O ato ganha relevância um dia após o Ministério Público Federal (MPF) ter solicitado à Justiça a suspensão imediata do controverso programa Tolerância Zero, alegando irregularidades em sua implementação. Este cenário de tensão reflete um crescente embate entre o setor informal e o poder público, com os trabalhadores reivindicando o direito fundamental de exercer suas atividades e o ordenamento justo do espaço urbano.

A persistência do protesto informal na orla carioca

Quarto dia de mobilização e o clamor por diálogo

A orla de Ipanema foi palco, mais uma vez, da voz dos trabalhadores informais. Munidos de panelas, apitos, tambores e palavras de ordem como “Unidos podemos trabalhar”, os ambulantes buscaram chamar a atenção da opinião pública e das autoridades para o que classificam como uma “criminalização” generalizada da categoria. A principal reivindicação dos manifestantes é a abertura de uma mesa de negociação com a prefeitura, a fim de discutir os termos do programa Tolerância Zero e buscar soluções que contemplem suas necessidades.

Maria de Lourdes do Carmo, conhecida como Maria dos Camelôs e coordenadora do Movimento Unido dos Camelôs (Muca), garantiu que as mobilizações não cessarão “enquanto não houver diálogo”. “Vai ter ato todos os dias. As pessoas já estão se organizando para voltar às ruas. Esse é o quarto dia seguido de manifestação, além da mobilização da semana passada. A gente não vai abaixar a cabeça diante da criminalização que estão fazendo com a categoria”, afirmou Maria, ressaltando a determinação do movimento em manter a pressão sobre o poder público municipal. A série de protestos sublinha a urgência com que os trabalhadores informais encaram a situação, sentindo-se diretamente impactados pelas políticas de fiscalização.

Reivindicações: ordenamento versus criminalização

Apesar do tom de protesto, os trabalhadores informais enfatizam que não são contrários ao ordenamento do comércio ambulante. Pelo contrário, defendem a organização do setor, mas reivindicam que o município estabeleça uma clara distinção entre vendedores informais legítimos e organizações criminosas. Segundo Maria dos Camelôs, é crucial que o governo avance na regularização daqueles que aguardam autorização para trabalhar há anos, muitos deles dependendo exclusivamente dessa atividade para o sustento de suas famílias.

“Nossa reivindicação é simples, queremos trabalhar. Somos favoráveis ao ordenamento e ao combate às irregularidades, mas não aceitamos que toda a categoria seja tratada como criminosa. Há trabalhadores esperando há anos pela licença da prefeitura. É preciso abrir esse diálogo e garantir o direito ao trabalho”, explicou a coordenadora do Muca. A fala reflete a frustração da categoria diante da percepção de que suas atividades são indiscriminadamente associadas a ilegalidades, em vez de serem reconhecidas como uma forma de subsistência e contribuição para a economia local. O movimento busca, portanto, um tratamento diferenciado e justo, que considere a realidade social e econômica desses trabalhadores.

Ação do Ministério Público Federal e a resposta municipal

MPF pede suspensão por irregularidades na gestão de praias

A tensão em torno do programa Tolerância Zero escalou na sexta-feira (18), quando o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública solicitando a suspensão imediata da iniciativa. O órgão sustenta que a prefeitura do Rio de Janeiro implantou uma política permanente de fiscalização na orla sem observar as normas federais que disciplinam a gestão das praias e dos bens da União. Esta argumentação levanta questões sobre a autonomia municipal em relação a áreas que, por sua natureza, são de responsabilidade federal ou requerem coordenação entre diferentes esferas de governo.

Além da suspensão, o MPF também pede que a União e o município elaborem, em conjunto, um plano abrangente que consiga compatibilizar o ordenamento urbano, o combate ao crime organizado e, simultaneamente, a proteção dos direitos dos trabalhadores ambulantes. Para o procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, a medida foi implementada sem o devido diálogo com a União, sem a participação da sociedade civil e, fundamentalmente, sem a apresentação de alternativas concretas para a regularização dos milhares de ambulantes que dependem da atividade para garantir sua renda. A ação do MPF, portanto, visa não apenas contestar a legalidade da implementação do programa, mas também apontar a falta de uma abordagem social e inclusiva.

Prefeitura reage: manutenção do programa e defesa da competência

Após a divulgação da ação do MPF, o prefeito em exercício, Eduardo Cavaliere, utilizou suas redes sociais para se manifestar, afirmando que o programa Tolerância Zero será mantido. Cavaliere classificou o pedido do Ministério Público como uma “absoluta inversão de valores” e defendeu a competência constitucional da prefeitura para atuar tanto no ordenamento urbano quanto no combate às estruturas criminosas que, segundo ele, exploram ilegalmente o comércio ambulante na orla da cidade.

De acordo com o prefeito em exercício, a fiscalização intensiva busca enfrentar organizações ligadas ao crime organizado e garantir a autoridade do poder público sobre o espaço urbano, elementos que, em sua visão, são essenciais para a segurança e o bem-estar da população. A postura da prefeitura indica uma firmeza na continuidade do programa, argumentando que as ações são necessárias para restaurar a ordem e combater atividades ilícitas. Este posicionamento, no entanto, coloca a administração municipal em rota de colisão direta não apenas com os trabalhadores informais, mas também com o Ministério Público Federal, prometendo um embate jurídico e político prolongado.

Escalada do conflito e busca por apoio federal

Críticas à postura da prefeitura e novas estratégias

A resposta do prefeito em exercício, Eduardo Cavaliere, foi duramente criticada por Maria dos Camelôs. Segundo a coordenadora do Muca, a declaração de Cavaliere foi “desrespeitosa com o Ministério Público e com o procurador Julio Araujo”. Além disso, ela reiterou que a ausência de diálogo com a categoria dos trabalhadores é insuficiente e inaceitável para o movimento. Maria enfatizou que a postura da prefeitura continua a criminalizar um setor importante da economia, que desempenha um papel relevante para a sociedade e faz a “roda da economia girar”.

Diante da intransigência percebida por parte da prefeitura, o movimento dos trabalhadores informais planeja ampliar sua articulação institucional nas próximas semanas. A estratégia agora inclui buscar apoio em outras esferas governamentais, elevando o debate para além da órbita municipal. Esta reorientação demonstra a determinação da categoria em não recuar e em buscar todos os caminhos possíveis para defender seus direitos e meios de subsistência. A ampliação do espectro de atuação do movimento pode trazer novos atores e dimensões para o conflito, que até então se concentrava principalmente na relação com a prefeitura.

Contatos com o governo federal em busca de “cessar-fogo”

Como parte de sua nova estratégia, Maria dos Camelôs revelou que representantes da categoria já iniciaram contatos com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU). O objetivo é levar as reivindicações diretamente ao governo federal, na esperança de encontrar uma instância superior capaz de mediar o conflito e garantir um tratamento mais justo aos trabalhadores. A busca pela intervenção federal é um passo significativo, que pode reconfigurar o cenário do embate.

“Nosso próximo passo é fazer uma denúncia ao governo federal. Já começamos a conversar com a SPU e queremos tratar diretamente desse assunto com o governo. Queremos um cessar-fogo nesta guerra entre a prefeitura e os trabalhadores”, disse Maria dos Camelôs, sublinhando a gravidade da situação e o anseio por uma trégua. A expressão “cessar-fogo” ilustra a intensidade do conflito e a urgência com que os trabalhadores buscam uma solução que ponha fim à fiscalização considerada abusiva e à percepção de criminalização. A expectativa é que o governo federal possa intermediar um diálogo construtivo e propor soluções que conciliem o ordenamento urbano com o direito ao trabalho e a dignidade dos trabalhadores informais.

O impasse entre os trabalhadores informais, a prefeitura do Rio de Janeiro e o Ministério Público Federal atinge um novo patamar de complexidade, com as manifestações ganhando escala e o embate jurídico se intensificando. Enquanto os ambulantes persistem na busca por diálogo e um plano de regularização que os diferencie de atividades criminosas, a administração municipal reitera a manutenção do programa Tolerância Zero, defendendo sua legitimidade no ordenamento urbano e no combate ao crime organizado. A intervenção do MPF e a iminente busca por apoio federal por parte dos trabalhadores sinalizam que a resolução deste conflito está longe de ser alcançada, prometendo novos capítulos na discussão sobre o direito ao trabalho, a gestão do espaço público e a inclusão social na cidade.

Para acompanhar os desdobramentos desta disputa e outras notícias relevantes sobre o cenário urbano e social do Rio de Janeiro, continue lendo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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