junho 4, 2026

Síndrome de May-Thurner: a compressão venosa oculta que causa trombose

Brazil Health

A trombose venosa profunda (TVP) é uma condição grave que ocorre quando um coágulo sanguíneo se forma em uma veia profunda, geralmente nas pernas. Sua ocorrência é comumente associada a fatores de risco bem conhecidos, como períodos prolongados de imobilização, procedimentos cirúrgicos recentes, o uso de anticoncepcionais hormonais ou a presença de doenças específicas que alteram a coagulação sanguínea. No entanto, o cenário se torna intrigante e preocupante quando casos de TVP surgem sem uma explicação aparente, especialmente em mulheres jovens e que, a princípio, são consideradas saudáveis. Nessas situações enigmáticas, uma condição anatômica específica e muitas vezes subestimada pode ser a responsável: a Síndrome de May-Thurner. Reconhecer essa síndrome é crucial para um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz, prevenindo recorrências e melhorando significativamente a qualidade de vida das pacientes afetadas.

Quando a anatomia explica a trombose

A compressão ilíaca e suas consequências

A Síndrome de May-Thurner (SMT) é uma condição anatômica caracterizada pela compressão crônica da veia ilíaca comum esquerda. Essa compressão ocorre devido à passagem da artéria ilíaca comum direita, que cruza sobre a veia ilíaca esquerda e a pressiona firmemente contra a quinta vértebra lombar ou o promontório sacro da coluna vertebral. Essa configuração anatômica, embora presente em uma parcela significativa da população, só se torna patológica quando a compressão é suficientemente severa para causar alterações hemodinâmicas e estruturais na veia.

A obstrução parcial ou total do fluxo sanguíneo na veia ilíaca esquerda resulta em uma dificuldade considerável para o retorno do sangue da perna esquerda em direção ao coração. Esse represamento sanguíneo, conhecido como estase venosa, é um dos principais fatores que contribuem para a formação de coágulos (trombos). A estase crônica pode levar ao espessamento da parede da veia, formação de fibroses e até de “teias” ou “esporões” intraluminais, que exacerbam ainda mais a obstrução. O resultado imediato pode ser dor, sensação de peso, inchaço persistente (edema) e, em casos mais graves, a temida trombose venosa profunda. A localização predominante da compressão no lado esquerdo do corpo é um fator chave que explica por que muitos quadros de TVP sem causa aparente ocorrem especificamente na perna esquerda.

Além da trombose, a Síndrome de May-Thurner pode ser a origem de outro problema que aflige muitas mulheres: as varizes pélvicas. A compressão na veia ilíaca aumenta a pressão venosa em toda a rede venosa pélvica, levando à dilatação e ao refluxo em outras veias da região. Essas varizes podem manifestar-se como dor pélvica crônica, que pode ser agravada durante o ciclo menstrual, após longos períodos em pé ou durante as relações sexuais (dispareunia). A identificação precoce dessa causa anatômica é fundamental, pois o tratamento direcionado à compressão original pode resolver ambos os problemas, que, de outra forma, são frequentemente abordados apenas em seus sintomas, sem solução definitiva.

Diagnóstico: um desafio subestimado

A necessidade de suspeita clínica e exames específicos

Apesar de a Síndrome de May-Thurner não ser considerada uma condição rara, sua prevalência real é provavelmente subestimada devido à falta de reconhecimento na prática clínica. Muitas vezes, o foco do tratamento se limita à trombose venosa profunda em si, com a prescrição de anticoagulantes, sem que a causa anatômica subjacente seja identificada. Essa abordagem sintomática, embora necessária para o tratamento agudo da trombose, falha em prevenir futuras recorrências, uma vez que o fator predisponente da compressão venosa persiste inalterado. Pacientes com SMT não diagnosticada podem experimentar múltiplos episódios de TVP, impactando severamente sua saúde e qualidade de vida.

No caso das varizes pélvicas associadas à síndrome, muitas mulheres sofrem anos com dores crônicas sem um diagnóstico correto. Frequentemente, esses sintomas são atribuídos a outras causas ginecológicas, musculoesqueléticas ou psicossomáticas, levando a um longo e frustrante percurso em busca de alívio. Esse atraso no diagnóstico compromete não apenas a vida sexual e a qualidade de vida da paciente, mas também a sua saúde mental, devido à persistência de uma condição inexplicável e debilitante. A ausência de um diagnóstico preciso da SMT impede a correção da causa raiz, perpetuando o ciclo de dor e desconforto.

O diagnóstico definitivo da Síndrome de May-Thurner exige uma alta suspeita clínica, especialmente em pacientes jovens com trombose inexplicada na perna esquerda ou dor pélvica crônica. Uma vez levantada a hipótese, a confirmação requer exames de imagem mais específicos e detalhados do sistema venoso profundo. Entre os métodos diagnósticos mais eficazes estão a angiotomografia computadorizada (angio-TC) e a angiorressonância magnética (angio-RM), que permitem visualizar tridimensionalmente a relação entre a artéria e a veia, demonstrando a compressão e eventuais alterações na parede do vaso. O ultrassom duplex venoso, quando realizado com técnica avançada e por profissionais experientes, também pode identificar sinais indiretos da compressão, como a alteração do fluxo sanguíneo e a dilatação a montante da obstrução. Reconhecer e confirmar a presença da Síndrome de May-Thurner é um divisor de águas, mudando completamente a estratégia de tratamento de paliativa para curativa.

Tratamento: indo além da anticoagulação

A abordagem endovascular para a síndrome de May-Thurner

Quando a trombose venosa profunda é diagnosticada, o tratamento inicial invariavelmente envolve a anticoagulação, a fim de dissolver o coágulo existente e prevenir a formação de novos trombos ou a migração do coágulo para os pulmões (embolia pulmonar). Essa etapa é padrão para qualquer caso de TVP. No entanto, para pacientes com Síndrome de May-Thurner, o tratamento não pode parar por aí. Se a causa mecânica da compressão não for abordada, o risco de recorrência da trombose ou a persistência dos sintomas das varizes pélvicas permanece elevado.

Quando a Síndrome de May-Thurner é confirmada como a causa da trombose ou das varizes pélvicas, a intervenção visa corrigir a compressão anatômica. A abordagem mais comum e eficaz é o tratamento endovascular, que consiste na colocação de um stent na veia ilíaca. Este procedimento minimamente invasivo é realizado sob anestesia local ou sedação, através de uma pequena incisão, geralmente na virilha. Um cateter é guiado até a veia ilíaca comprimida, onde um balão é inflado para dilatar a área estreitada (angioplastia). Em seguida, um stent, uma pequena malha metálica expansível, é implantado para manter a veia aberta e restaurar o fluxo sanguíneo normal.

O principal objetivo do procedimento de stent é eliminar a compressão, reduzir a pressão venosa e, consequentemente, diminuir drasticamente o risco de novos episódios de trombose. No caso de varizes pélvicas associadas, a normalização do fluxo na veia ilíaca pode levar à melhora significativa ou resolução da dor e de outros sintomas, uma vez que a causa subjacente da congestão venosa é tratada. A recuperação costuma ser rápida, e os resultados são geralmente bons quando o procedimento é bem indicado e realizado por uma equipe especializada. A Síndrome de May-Thurner é um exemplo claro de como nem toda trombose tem origem apenas em fatores clínicos tradicionais; em pacientes jovens, especialmente mulheres, investigar e tratar causas menos óbvias pode fazer toda a diferença para o sucesso do tratamento e a prevenção de complicações a longo prazo.

Perspectivas para diagnóstico e tratamento

A Síndrome de May-Thurner representa um campo importante para a conscientização médica e pública. Sua complexidade reside na natureza silenciosa de sua causa anatômica e na multiplicidade de sintomas que pode gerar, mimetizando outras condições. A compreensão de que nem toda trombose ou dor pélvica crônica tem uma etiologia convencional é fundamental para desafiar o raciocínio diagnóstico padrão. A valorização da história clínica, a atenção a sintomas atípicos e a solicitação de exames de imagem específicos são passos cruciais para um diagnóstico precoce e preciso. A implementação de tratamentos endovasculares, como a colocação de stent, oferece uma solução duradoura e minimamente invasiva, capaz de transformar a qualidade de vida dos pacientes e prevenir recorrências potencialmente graves. Em última análise, o reconhecimento da Síndrome de May-Thurner é essencial para garantir que pacientes jovens, em particular mulheres, recebam o cuidado adequado, permitindo-lhes retomar uma vida plena e saudável, livre do fantasma da trombose e da dor crônica.

Você já experimentou sintomas persistentes de dor ou inchaço na perna esquerda, ou dor pélvica crônica sem causa aparente? Não hesite em buscar uma avaliação médica especializada. Um diagnóstico precoce da Síndrome de May-Thurner pode ser o caminho para o tratamento definitivo e a recuperação da sua qualidade de vida.

Fonte: https://jovempan.com.br

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