julho 19, 2026

Pleonasmos: por que devemos evitar o ‘chover no molhado’

Verônica Bareicha

A busca por uma comunicação clara e eficaz é um pilar fundamental em qualquer interação humana, seja no dia a dia, no ambiente profissional ou na esfera pública. No entanto, é comum nos depararmos com construções linguísticas que, embora frequentes, carregam uma redundância desnecessária. Esse fenômeno, conhecido como pleonasmo, pode comprometer a objetividade e a fluidez da mensagem. A expressão popular ‘chover no molhado’ ilustra perfeitamente essa insistência em repetir algo já explícito, um esforço que não agrega valor à informação. Compreender e evitar o pleonasmo vicioso é crucial para aprimorar a forma como nos expressamos, garantindo que nossas palavras transmitam significado preciso e conciso, sem excessos que possam gerar ambiguidades ou desinteresse.

O que são pleonasmos e sua classificação

O termo “pleonasmo” deriva do grego pleonasmos, que significa “superabundância” ou “excesso”. Na linguística, ele se refere à repetição desnecessária de um termo ou ideia já contida na expressão. Embora muitas vezes associado a um erro de linguagem, o pleonasmo possui duas classificações distintas: o vicioso e o estilístico. Distinguir entre eles é essencial para utilizar a língua portuguesa com maior precisão e intencionalidade.

Pleonasmo vicioso: a redundância a ser evitada

O pleonasmo vicioso é aquele que ocorre por desconhecimento ou descuido, resultando em uma repetição de ideias que não agrega nenhum valor semântico à frase. Ele se manifesta quando uma palavra é usada juntamente com outra que já expressa o mesmo sentido, tornando a construção redundante e, por vezes, confusa. A principal característica do pleonasmo vicioso é a falta de intencionalidade, gerando um excesso de informação que pode prejudicar a clareza e a concisão da comunicação. É a forma de “chover no molhado” que se deve evitar.

Pleonasmo estilístico: recurso de intensidade

Em contraste, o pleonasmo estilístico, também conhecido como pleonasmo enfático, é uma figura de linguagem intencional. Ele é empregado como um recurso expressivo para conferir maior ênfase, intensidade ou beleza à mensagem. Quando utilizado de forma consciente, o pleonasmo estilístico pode reforçar uma ideia, evocar emoções ou criar um efeito poético. Exemplos clássicos incluem “vi com meus próprios olhos” ou “subir para cima”, se o objetivo for, por exemplo, enfatizar o esforço da subida. No entanto, seu uso requer sensibilidade e contexto para não ser confundido com um erro.

Pleonasmos viciosos comuns e suas correções

Para aprimorar a comunicação e evitar o pleonasmo vicioso, é fundamental reconhecer e corrigir as expressões redundantes mais frequentes. A eliminação dessas repetições contribui para uma linguagem mais objetiva, clara e elegante. Abaixo, apresentamos alguns exemplos comuns e as formas corretas de utilizá-los:

Exemplos práticos para aprimorar a linguagem

Adiar para depois: O verbo “adiar” já carrega em si a ideia de postergar algo para um momento futuro. A inclusão de “para depois” é, portanto, uma redundância.
Correto: Adiar. (Ex: O evento foi adiado.)
Ambos os dois: A palavra “ambos” significa “os dois” por definição. Não há necessidade de reforçar o numeral.
Correto: Ambos. (Ex: Ambos os candidatos compareceram.)
Bater palmas com as mãos: O ato de bater palmas é intrinsecamente realizado com as mãos. A especificação é desnecessária.
Correto: Bater palmas. (Ex: A plateia começou a bater palmas.)
Beber uma bebida: O verbo “beber” implica a ingestão de um líquido. A palavra “bebida” é redundante.
Correto: Beber. (Ex: Ele bebeu água.)
Cego dos olhos: Se alguém é cego, a condição se refere naturalmente à visão, que ocorre pelos olhos.
Correto: Cego. (Ex: O personagem era cego desde o nascimento.)
Certeza absoluta: Uma “certeza” é, por natureza, um estado de convicção total, sem dúvidas. O adjetivo “absoluta” não adiciona significado.
Correto: Certeza. (Ex: Ele tinha certeza de sua decisão.)
Conclusão final: Uma “conclusão” representa o encerramento de um raciocínio, de um processo ou de um texto. Ela é, por essência, a parte final.
Correto: Conclusão. (Ex: A conclusão do relatório foi apresentada.)
Conhecer pela primeira vez: O verbo “conhecer” denota o ato de ter contato ou familiaridade com algo ou alguém pela primeira vez.
Correto: Conhecer. (Ex: Fui conhecer a nova funcionária.)
Consenso geral: “Consenso” significa um acordo ou concordância de ideias por parte de um grupo. A ideia de “geral” já está implícita.
Correto: Consenso. (Ex: Houve consenso entre os membros.)
Descer para baixo: O verbo “descer” indica movimento em direção a um nível inferior. A expressão “para baixo” é redundante.
Correto: Descer. (Ex: Ele desceu as escadas.)
Dupla de dois: Uma “dupla” é, por definição, composta por dois elementos ou pessoas.
Correto: Dupla. (Ex: A dupla de cantores subiu ao palco.)
Elo de ligação: Um “elo” já é um elemento que serve para unir ou ligar algo. “De ligação” é redundante.
Correto: Elo. (Ex: A amizade era um forte elo entre eles.)
Encarar de frente: O verbo “encarar” implica olhar diretamente para algo ou alguém, já assumindo a frontalidade.
Correto: Encarar. (Ex: Ele precisou encarar a realidade.)
Entrar para dentro: “Entrar” significa mover-se para o interior de um local.
Correto: Entrar. (Ex: Por favor, entre na sala.)
Fatos reais: Por definição, um “fato” é um acontecimento ou uma ocorrência real. Não existem fatos irreais.
Correto: Fatos. (Ex: Os fatos foram apurados pela investigação.)
Ganhar de graça: O verbo “ganhar” já pressupõe que algo foi obtido sem custo ou pagamento.
Correto: Ganhar. (Ex: Ele ganhou um prêmio.)
Gritar alto: Um “grito” é uma emissão de voz em volume elevado. O adjetivo “alto” é redundante.
Correto: Gritar. (Ex: A criança começou a gritar de alegria.)
Há muitos anos atrás: O verbo “haver” no sentido de tempo decorrido (“Há”) já indica passado. A palavra “atrás” é, portanto, desnecessária.
Correto: Há muitos anos. (Ex: Isso aconteceu há muitos anos.)
Na minha opinião pessoal: Uma “opinião” é, por sua natureza, uma visão ou um juízo individual. O adjetivo “pessoal” não acrescenta informação.
Correto: Na minha opinião. (Ex: Na minha opinião, o projeto é viável.)
Pequenos detalhes: “Detalhes” são, por definição, elementos de menor importância ou de pequena escala.
Correto: Detalhes. (Ex: Precisamos cuidar dos detalhes da cerimônia.)
Repetir de novo: O verbo “repetir” significa fazer ou dizer algo novamente.
Correto: Repetir. (Ex: Por favor, repita a pergunta.)
Sair para fora: “Sair” indica movimento do interior para o exterior.
Correto: Sair. (Ex: Ela decidiu sair para espairecer.)
Subir para cima: O verbo “subir” significa mover-se para um nível superior.
Correto: Subir. (Ex: Ele subiu a montanha.)
Surdo dos ouvidos: Se alguém é “surdo”, a condição se refere à perda de audição, que ocorre pelos ouvidos.
Correto: Surdo. (Ex: O vizinho era surdo.)

Nuances da linguagem: casos especiais

Existem algumas expressões que, embora não sejam pleonasmos em sentido estrito, podem gerar redundância ou imprecisão se não usadas com o devido cuidado e contexto. Analisar esses casos é fundamental para uma comunicação ainda mais apurada.

“Habitat natural”: contexto e diferenciação

A expressão “habitat natural” pode soar pleonástica, visto que “habitat” já se refere ao ambiente onde uma espécie vive. Contudo, seu uso é considerado aceitável em contextos específicos, principalmente quando se deseja diferenciar o ambiente de origem de um ser vivo de um ambiente artificial ou modificado pelo homem, como um zoológico, um cativeiro ou um laboratório. Nesses casos, o adjetivo “natural” serve para enfatizar a condição selvagem e original do ambiente. A precisão está no intento do emissor: se não houver necessidade de tal diferenciação, o simples “habitat” é suficiente.

“Vítima fatal”: precisão semântica

Nesse caso, a expressão “vítima fatal” configura uma impropriedade semântica, pois “fatal” significa “que causa a morte” ou “que leva à morte”. Quem é fatal é o evento, o acidente, a doença ou a arma, e não a pessoa que morre. A vítima é quem sofre as consequências, mas não é ela que é “fatal”. Para maior precisão, o correto seria dizer “o acidente foi fatal”, “a doença foi fatal”, ou “o acidente fez vítimas fatais”, referindo-se às pessoas que morreram em decorrência do evento. A distinção, embora sutil, é crucial para a clareza e a exatidão jornalística.

Em busca de uma comunicação precisa e impactante

A maestria na linguagem reside na capacidade de transmitir ideias de forma clara, concisa e impactante, evitando o desnecessário e valorizando cada palavra. A análise e correção dos pleonasmos viciosos representam um passo significativo nesse caminho, liberando a comunicação de excessos que podem obscurecer a mensagem. Ao priorizar a objetividade, contribuímos não apenas para a qualidade da nossa própria expressão, mas também para um diálogo mais produtivo e menos propenso a mal-entendidos em todos os níveis da sociedade. A escolha por uma linguagem precisa reflete um compromisso com o pensamento crítico e a efetividade na transmissão de informações.

Ao aplicar esses princípios, você contribui para um ambiente de comunicação mais transparente e produtivo.

Fonte: https://pleno.news

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