fevereiro 8, 2026

Perda de olfato pode ser sinal precoce de Alzheimer: saiba quando investigar

Perda de olfato pode ser sinal precoce de Alzheimer: saiba quando investigar

A alteração na percepção de cheiros, conhecida como perda de olfato ou anosmia, é frequentemente encarada como um problema de saúde menor e temporário, muitas vezes associado a condições benignas como gripes, resfriados, alergias sazonais ou, mais recentemente, infecções por COVID-19. Contudo, a ciência tem revelado uma perspectiva mais complexa e crucial: evidências acumuladas ao longo das últimas décadas indicam que mudanças sutis e persistentes na capacidade olfatória podem ser um indicativo precoce de doenças neurológicas degenerativas, entre elas o Alzheimer. Reconhecer a natureza dessas alterações é fundamental para diferenciar um sintoma passageiro de um potencial sinal de alerta que exige investigação médica aprofundada, permitindo um diagnóstico antecipado e a implementação de estratégias de acompanhamento que visam preservar a qualidade de vida.

O olfato como marcador neurológico: A conexão cerebral

A singularidade do sistema olfatório

O sistema olfatório humano possui uma característica distintiva que o diferencia dos demais sentidos: suas vias neurais estabelecem uma conexão direta e privilegiada com áreas cerebrais vitais. Ao contrário da visão ou da audição, cujos estímulos sensoriais são primeiramente processados pelo tálamo antes de atingir o córtex cerebral, os sinais olfativos acessam rapidamente estruturas profundas do cérebro. Estas incluem o bulbo olfatório, responsável pela primeira análise dos cheiros; o sistema límbico, fortemente envolvido nas emoções e na memória; e o córtex entorrinal, uma região crucial para a formação de novas memórias e a navegação espacial.

É precisamente nessas regiões cerebrais que se observa o início das alterações estruturais e funcionais no processo neurodegenerativo característico da doença de Alzheimer. Dada essa vulnerabilidade e a conexão direta, a deterioração da capacidade olfatória – manifestada como dificuldades na identificação, discriminação ou reconhecimento de odores – pode surgir anos, ou até mesmo décadas, antes dos sintomas cognitivos clássicos, como perda de memória e desorientação. Isso posiciona o olfato como um valioso marcador funcional precoce, oferecendo uma janela de oportunidade para a detecção.

Testes e triagem precoce

A identificação precoce de indivíduos sob risco de declínio cognitivo, especialmente aqueles suscetíveis ao Alzheimer, é um objetivo central na pesquisa neurológica. Nesse contexto, pesquisas recentes têm demonstrado o potencial de testes simples de identificação de odores, quando combinados com avaliações cognitivas breves. Esses exames, que podem ser aplicados de forma relativamente rápida e não invasiva, medem a capacidade do paciente em reconhecer e nomear diferentes fragrâncias.

A utilização desses testes olfatórios como ferramenta de triagem oferece um método acessível e eficaz para ampliar as possibilidades de identificação de risco em diversos ambientes clínicos, desde a atenção primária até clínicas especializadas. Ao integrar a avaliação olfatória nas rotinas médicas, é possível direcionar pacientes de alto risco para investigações mais aprofundadas, como neuroimagem ou análise de biomarcadores específicos, potencializando o diagnóstico precoce e a intervenção em estágios onde a modulação da doença pode ser mais efetiva.

Distinguindo a perda de olfato: Causas comuns e sinais de alerta

Nem tudo é Alzheimer: As causas benignas

Apesar da crescente atenção sobre a relação entre a perda de olfato e condições neurológicas, é crucial salientar que a maioria das alterações olfatórias possui causas benignas e não neurológicas. A rinite alérgica, a rinossinusite crônica, infecções virais diversas (incluindo resfriados comuns e a já mencionada COVID-19), o tabagismo, o uso de determinados medicamentos e a exposição prolongada a substâncias irritantes são fatores ambientais e clínicos frequentes que podem comprometer temporariamente ou permanentemente a função olfatória. Traumatismos cranianos também podem levar à perda de olfato, dependendo da extensão da lesão.

Nesses casos, a perda do olfato costuma ser acompanhada por outros sintomas localizados, como congestão nasal, coriza, espirros ou dor facial, e frequentemente melhora com o tratamento específico da condição subjacente. A correta diferenciação entre essas causas locais e aquelas de origem neurológica é um passo fundamental para evitar alarmismo desnecessário, por um lado, e, por outro, para impedir atrasos no diagnóstico de quadros mais graves.

Quando procurar ajuda médica: Sinais de alerta específicos

Um sinal de alerta importante surge quando a alteração do olfato se manifesta de forma progressiva e persistente, sem uma explicação clara por doenças nasais evidentes. Esse risco é significativamente maior em indivíduos com idade superior a 60 anos, ou quando a perda olfatória está associada a queixas cognitivas sutis que, por si só, podem ser minimizadas ou atribuídas ao envelhecimento normal.

Essas queixas incluem lapsos de memória frequentes, dificuldade em manter a concentração em tarefas rotineiras, confusão ao realizar atividades familiares ou mudanças inexplicáveis no comportamento e na personalidade. Nesses cenários, a alteração olfatória não deve ser vista como um achado isolado, mas sim como parte integrante de um quadro clínico mais amplo que justifica uma investigação neurológica detalhada. A presença conjunta desses sinais reforça a necessidade de uma avaliação médica especializada.

Diagnóstico e o impacto de um sintoma “silencioso”

A rota diagnóstica e a evolução da abordagem

A abordagem inicial para pacientes que relatam perda de olfato geralmente começa com uma avaliação otorrinolaringológica. O objetivo principal é excluir causas inflamatórias, obstrutivas ou estruturais nasais que possam estar impactando a função olfatória. Se não houver uma explicação local satisfatória, ou se sinais neurológicos associados forem observados, a investigação deve ser aprofundada com uma avaliação neurológica e neuropsicológica.

O conceito atual de diagnóstico da doença de Alzheimer evoluiu para um modelo baseado em biomarcadores, reconhecendo que o processo patológico da doença se inicia muito antes da manifestação clínica evidente dos sintomas cognitivos. Neste contexto, o déficit olfatório pode funcionar como um “sinal sentinela” acessível e de baixo custo, orientando a necessidade de um acompanhamento clínico mais rigoroso e a consideração de exames mais complexos, como ressonâncias magnéticas cerebrais ou análises de líquido cefalorraquidiano. A identificação precoce da doença permite um melhor planejamento de cuidados, o controle de fatores de risco modificáveis, a orientação adequada para pacientes e seus familiares, e a preservação da autonomia e segurança do indivíduo pelo maior tempo possível.

O impacto na qualidade de vida e segurança

A perda do olfato, embora por vezes subestimada, afeta profundamente a qualidade de vida. Além de diminuir o prazer sensorial proporcionado pela alimentação e impactar as interações sociais ligadas à culinária e aos aromas, a anosmia representa um risco significativo para a segurança diária. A incapacidade de detectar cheiros essenciais, como fumaça de incêndios, vazamentos de gás ou alimentos estragados, pode colocar o indivíduo em situações de perigo sem que ele perceba. Em contextos específicos, especialmente quando persistente e sem causa aparente, essa “pequena” alteração olfatória pode ser um indicador silencioso de que o cérebro está em processo de mudança neurodegenerativa. Reconhecer e investigar esse sintoma com atenção, equilíbrio e uma sólida base científica é essencial para uma abordagem mais preventiva, humana e alinhada com os avanços da medicina moderna, focando na saúde cerebral em sua totalidade.

Para aqueles que notam uma perda persistente do olfato, especialmente se acompanhada por alterações de memória ou comportamento, a consulta a um profissional de saúde é um passo crucial. Buscar orientação médica pode fazer toda a diferença no diagnóstico e na gestão de condições subjacentes.

Fonte: https://jovempan.com.br

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