maio 14, 2026

Os desafios da sucessão na Samsung: Imposto bilionário e conflitos familiares

Legenda da foto, O presidente da Samsung, Lee Jae-yong, de 57 anos, é neto do fundador da empresa

A Samsung, gigante tecnológica sul-coreana e um dos maiores conglomerados do mundo, enfrenta há anos uma saga complexa e dramática em sua linha de sucessão. Mais do que uma transição de poder corporativo, o processo de passagem do bastão na dinastia Lee é marcado por impostos bilionários, batalhas judiciais de alto perfil e intrigas familiares que frequentemente ganham as manchetes na Coreia do Sul. A morte do patriarca Lee Kun-hee, em 2020, não apenas encerrou uma era de expansão sem precedentes, mas também desencadeou uma série de eventos que testam a resiliência e a governança de uma das empresas mais influentes do planeta. A luta pelo controle da Samsung revela as peculiaridades dos chaebols coreanos e a imensa pressão sobre seus herdeiros, tornando a sucessão um espetáculo público de poder e dinheiro.

O legado de uma dinastia e o imposto da morte

A morte de Lee Kun-hee em outubro de 2020 marcou o fim de uma era para a Samsung Electronics, elevando o conglomerado a um patamar global de inovação e poder. Sob sua liderança, a empresa transformou-se de uma fabricante de eletrônicos de baixo custo em uma potência tecnológica, dominando mercados como smartphones, televisores e semicondutores. Contudo, seu falecimento não apenas deixou um vácuo de liderança, mas também expôs um dos maiores desafios enfrentados pela família Lee: o imposto sobre herança, um dos mais altos do mundo na Coreia do Sul.

A herança mais cara do mundo

Estima-se que os ativos deixados por Lee Kun-hee totalizavam cerca de 26 trilhões de wons (aproximadamente 23 bilhões de dólares na época), incluindo participações majoritárias em empresas-chave da Samsung, como Samsung Electronics, Samsung Life Insurance e Samsung C&T, além de valiosas coleções de arte e imóveis. O valor do imposto sobre essa herança atingiu a impressionante cifra de 12 trilhões de wons (cerca de 10,8 bilhões de dólares), o maior imposto sobre herança já registrado na história sul-coreana e um dos maiores globalmente.

Para arcar com essa quantia colossal, a família Lee — composta por sua esposa, Hong Ra-hee, e seus três filhos, Lee Jae-yong, Lee Boo-jin e Lee Seo-hyun — precisou desenvolver uma estratégia complexa. Uma parcela significativa da dívida seria paga em parcelas ao longo de cinco anos. Parte dos ativos, incluindo uma vasta coleção de arte com mais de 23.000 peças de artistas renomados como Picasso, Monet e Dalí, foi doada a museus, e doações significativas também foram feitas para hospitais e instituições de pesquisa médica, ajudando a mitigar a base tributável, mas ainda assim deixando uma dívida gigantesca. A necessidade de levantar capital para o pagamento do imposto sem perder o controle do conglomerado gerou intensa especulação sobre a venda de participações e a reestruturação dos ativos familiares, um movimento delicado que poderia alterar o equilíbrio de poder dentro do império Samsung.

As batalhas judiciais de Lee Jae-yong

Paralelamente à questão do imposto sobre herança, Lee Jae-yong, o herdeiro aparente e presidente executivo da Samsung Electronics, tem enfrentado uma série de problemas legais que ofuscam seu caminho para a liderança plena. Sua jornada ao topo tem sido marcada por acusações de corrupção, manipulação de mercado e perjúrio, eventos que destacaram a complexa e, por vezes, controversa intersecção entre negócios e política na Coreia do Sul.

Corrupção, fusões e a prisão do herdeiro

O drama jurídico de Lee Jae-yong teve seu ponto culminante no escândalo de corrupção que levou ao impeachment da ex-presidente sul-coreana Park Geun-hye em 2017. Lee foi acusado de subornar a ex-presidente e sua confidente, Choi Soon-sil, com doações milionárias para fundações controladas por Choi, em troca de apoio governamental a uma controversa fusão entre duas afiliadas da Samsung: Cheil Industries e Samsung C&T, em 2015. Essa fusão foi crucial para consolidar o controle da família Lee sobre a Samsung Electronics, ao mesmo tempo em que enfrentava forte oposição de acionistas minoritários, que argumentavam que a transação subvalorizava a Samsung C&T em detrimento da Cheil Industries.

As autoridades alegaram que o suborno visava garantir que o Serviço Nacional de Pensões, um grande acionista de ambas as empresas, aprovasse a fusão, facilitando o caminho para Lee Jae-yong herdar o controle da Samsung. Em 2017, Lee foi preso e condenado a cinco anos de prisão por suborno e outros crimes, embora tenha sido posteriormente libertado após um recurso que reduziu sua pena. No entanto, o caso foi reaberto e, em janeiro de 2021, ele foi novamente condenado a dois anos e meio de prisão por suborno e peculato, sendo detido mais uma vez. Sua prisão gerou preocupações sobre a liderança da Samsung em um momento de intensa concorrência global e desafios tecnológicos. Embora tenha sido posteriormente libertado em regime de liberdade condicional e, mais tarde, perdoado, as batalhas legais de Lee Jae-yong e as alegações de má conduta corporativa continuam a pairar sobre sua imagem e a da Samsung.

A dinâmica familiar e o futuro da Samsung

Apesar das pressões externas e dos desafios legais, a família Lee mantém uma influência inegável sobre a Samsung. A estrutura de chaebol, com suas complexas participações cruzadas entre as empresas do grupo, permite que a família fundadora exerça controle desproporcional com uma participação acionária relativamente pequena. No entanto, as disputas internas pela herança e pelo poder têm sido uma constante, adicionando outra camada de complexidade à saga de sucessão.

Consolidação de poder e governança corporativa

Lee Jae-yong, embora formalmente elevado a presidente executivo em 2022, tem atuado como líder de facto da Samsung há anos. Sua ascensão, no entanto, é permeada por críticas à governança corporativa da empresa. Ativistas e reguladores têm exigido maior transparência e a redução da influência familiar em favor de práticas de gestão mais alinhadas aos interesses dos acionistas minoritários. A própria fusão controversa de 2015 foi um mecanismo para consolidar sua participação e controle, gerando um debate acalorado sobre a equidade das decisões dentro do conglomerado.

O futuro da Samsung sob a liderança de Lee Jae-yong dependerá de sua capacidade de navegar não apenas pelos desafios do mercado global e da inovação tecnológica, mas também de restaurar a confiança pública e implementar reformas de governança. As pressões para desmantelar as práticas opacas dos chaebols e para que as empresas sejam mais responsáveis perante todos os seus stakeholders são crescentes. A saga de sucessão da Samsung, com seus impostos bilionários, dramas na justiça e intrigas familiares, é um microcosmo dos desafios enfrentados pelas grandes corporações familiares na Coreia do Sul, evidenciando que o poder e a riqueza vêm com um preço elevado e uma escrutínio público implacável.

Diante dos contínuos desafios legais e da necessidade de reformar a governança corporativa, o futuro da Samsung sob a liderança de Lee Jae-yong permanece sob intensa observação. Como a empresa, uma pedra angular da economia sul-coreana, irá equilibrar a tradição dinástica com as demandas por modernidade e transparência?

Compartilhe sua opinião sobre como os chaebols coreanos podem evoluir para garantir uma governança mais justa e sustentável.

Fonte: https://www.bbc.com

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