O dia 27 de junho ecoa na memória de milhões de torcedores como o aniversário de um dos momentos mais emblemáticos da história do futebol sul-americano. Há exatos 14 anos, o estádio La Bombonera, em Buenos Aires, palco da primeira partida da aguardada final da Libertadores de 2012, testemunhava um confronto épico entre o tradicional Boca Juniors e o Corinthians. Este jogo, carregado de expectativa e mística, seria decisivo para a inédita conquista continental do Timão. O grande destaque da noite, que se transformaria em um marco eterno, foi o inesquecível gol de Romarinho, um lance de pura genialidade que não só igualou o placar, mas também abriu o caminho para a consagração do clube brasileiro no cenário sul-americano.
O cenário mítico de La Bombonera
A atmosfera pré-jogo na capital argentina era de efervescência e tensão. O Boca Juniors, um gigante com tradição invejável na Copa Libertadores e seis títulos em sua prateleira, recebia o Corinthians em seu santuário, La Bombonera, um estádio conhecido por sua arquitetura peculiar e a pressão avassaladora exercida por sua fanática torcida, que canta e salta sem parar, fazendo o chão tremer. Para o Corinthians, a partida representava a culminância de uma campanha histórica e a primeira vez que o clube disputava uma decisão do torneio mais cobiçado da América do Sul. A equipe brasileira, que buscava o título inédito, não teria apenas que superar um adversário de peso, mas também a “mística” que envolve o campo xeneize, onde muitos visitantes sucumbiram à pressão ao longo da história. A expectativa por parte da torcida corintiana, que viajou em grande número para Buenos Aires, era enorme, mas a apreensão diante de um desafio tão grandioso também pairava no ar.
A pressão sobre o estreante Corinthians
Sob o comando do técnico Tite, conhecido por sua organização tática e capacidade de motivar seus elencos, o Alvinegro entrou em campo com uma formação robusta, buscando equilibrar a intensidade argentina com sua habitual solidez defensiva e contra-ataques precisos. O onze inicial era composto por Cássio no gol, que se tornaria um dos grandes heróis da campanha; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos na defesa, uma linha de zaga que se mostrava impenetrável; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex no meio-campo, combinando força, técnica e visão de jogo; com Jorge Henrique e Emerson Sheik na frente, buscando velocidade e criatividade.
A partida começou com o Boca Juniors impondo seu ritmo, empurrado por uma torcida que cantava incessantemente, criando um verdadeiro caldeirão. O Corinthians sofreu nos primeiros minutos, enfrentando uma série de investidas e chances perigosas que exigiram atenção máxima da defesa e, principalmente, do goleiro Cássio, que já demonstrava reflexos apurados e uma segurança impressionante. A pressão se manteve constante, com o time argentino buscando o gol a todo custo, mas a solidez defensiva do Timão conseguiu conter os ímpetos iniciais. A primeira etapa terminou sem gols, um alívio para o lado brasileiro diante do cenário hostil e da intensidade demonstrada pelos donos da casa.
O enredo dramático e a mudança tática de Tite
O segundo tempo trouxe um novo capítulo para a intensidade do confronto. Aos 25 minutos, a pressão argentina finalmente se traduziu em gol. Em uma cobrança de escanteio na área corintiana, a bola foi alçada com precisão, e o centroavante Santiago Silva se elevou para cabecear com força, mandando a bola para o fundo das redes. O 1 a 0 era um golpe duro para o Corinthians. A derrota na Bombonera significaria a obrigação de vencer no jogo de volta, no Pacaembu, para sequer levar a decisão para a prorrogação ou pênaltis. O cenário se complicava de forma significativa, e a mística da Bombonera parecia mais forte do que nunca, ameaçando os sonhos corintianos de glória continental.
A ascensão de Romarinho e o gol que silenciou Buenos Aires
Diante da desvantagem no placar e da escassez de tempo para reverter a situação, o técnico Tite percebeu a necessidade de uma mudança tática e de energia em campo. Aos 39 minutos da etapa final, ele tomou uma decisão ousada e que entraria para a história: tirou o experiente Danilo, um dos líderes da equipe e peça fundamental na campanha, para colocar o jovem Romarinho. Naquele momento, Romarinho tinha apenas 21 anos, havia chegado ao clube no meio de 2012 após uma boa passagem pelo Bragantino e fazia sua estreia em uma partida de Copa Libertadores pelo Corinthians, e logo em uma final, na Bombonera, com o time perdendo. Poucos poderiam prever o impacto imediato dessa substituição, que se revelaria uma jogada de mestre.
Apenas dois minutos após entrar em campo, com o relógio marcando 41 minutos do segundo tempo, o destino do jogo e da competição começou a mudar de forma espetacular. Paulinho, com sua característica garra e incansável marcação, roubou a bola do maestro boquense Juan Román Riquelme no meio-campo, iniciando a jogada histórica. A bola chegou a Emerson Sheik, que, com muita ginga, quase caindo após o bote de um defensor adversário, conseguiu descolar um passe em profundidade milimétrico para a área. Lá estava o camisa 31, Romarinho, completamente sozinho, correndo em direção ao gol, com a defesa do Boca surpreendida e o goleiro Orion saindo para tentar fechar o ângulo. Em seu primeiro toque na bola no jogo, com uma frieza de veterano e uma habilidade notável, Romarinho aplicou uma “cavadinha” perfeita, encobrindo o goleiro do Boca Juniors. A bola tocou as redes, e o silêncio momentâneo da Bombonera foi o prenúncio de um misto de incredulidade e admiração. O gol antológico de Romarinho garantia o empate em 1 a 1, um resultado heroico para o Corinthians, que não só recuperava a desvantagem, mas também ganhava um impulso psicológico fundamental.
As consequências do empate e o legado de um campeão
O empate em 1 a 1 na casa do adversário mudou completamente o panorama da final. O gol de Romarinho não apenas salvou o Corinthians de uma derrota, que teria adicionado uma pressão imensa para o jogo de volta, mas também trouxe uma vantagem psicológica imensa para o confronto decisivo. O time brasileiro agora precisava apenas de uma vitória simples no Pacaembu para conquistar o título. Aquele gol representou um balde de água fria nas pretensões do Boca Juniors e injetou uma dose de confiança e crença inabaláveis no elenco corintiano.
A glória continental e a imortalização de um feito
Uma semana depois, em um Pacaembu eufórico e completamente lotado, o Corinthians confirmaria sua superioridade, vencendo o Boca Juniors por 2 a 0, com dois gols de Emerson Sheik, e levantando pela primeira vez a tão sonhada taça de campeão da América, de forma invicta. O feito de Romarinho na Bombonera foi, sem dúvida, um dos pilares dessa conquista histórica, um momento divisor de águas que mostrou a capacidade de superação do time.
O gol de Romarinho, apelidado de “xodó” da torcida, imortalizou o nome do jovem atacante na história do Corinthians e do futebol sul-americano. Sua passagem pelo clube foi breve, mas intensa e recheada de momentos importantes, incluindo a participação na conquista do Mundial de Clubes da FIFA, onde o Timão superou o poderoso Chelsea na final, no Japão. Além disso, Romarinho tinha um histórico marcante em clássicos, com cinco gols em cinco jogos contra o arquirrival Palmeiras, incluindo dois logo em sua estreia pelo Campeonato Brasileiro de 2012, semanas antes da final da Libertadores. Em 2014, ele seguiu para o futebol do Catar, onde continuou a demonstrar seu faro de gol e sua capacidade técnica. Aquele 27 de junho, no entanto, permanece como o dia em que um jovem, em seu primeiro toque na bola na final da Libertadores, transformou a desvantagem em esperança e, de forma inesquecível, calou a mítica Bombonera, escrevendo um capítulo dourado na saga do Corinthians.
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