O ex-deputado federal Alexandre Ramagem, atualmente foragido nos Estados Unidos, prestou depoimento crucial ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira. A oitiva, realizada por videoconferência, insere-se na ação penal que investiga a chamada trama golpista, processo que havia sido suspenso e retomou seu trâmite após Ramagem perder seu mandato parlamentar devido a uma condenação prévia de 21 anos de prisão. O depoimento de Alexandre Ramagem é um marco importante na apuração dos fatos, especialmente diante das acusações de uso indevido da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e sua condição de foragido da justiça brasileira.
O depoimento e a reafirmação de versão
Durante a sessão virtual perante os ministros do STF, Alexandre Ramagem reafirmou o teor do depoimento que havia prestado ao longo da tramitação do processo principal. Em sua fala, o ex-parlamentar buscou desvincular-se das acusações mais graves que pesam contra ele, mantendo a narrativa de sua defesa. A estratégia de reafirmar versões anteriores é comum em processos criminais complexos, onde a consistência do testemunho é frequentemente testada e pode influenciar a percepção do tribunal. A videoconferência permitiu que o processo avançasse, mesmo com Ramagem residindo fora do território nacional para evitar o cumprimento de sua pena, garantindo a continuidade da justiça em situações de difícil acesso ao depoente.
Negação de uso ilegal da Abin
Um dos pontos centrais da oitiva foi a veemente negação de Alexandre Ramagem sobre o uso ilegal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para monitorar adversários políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro. As acusações de aparelhamento e desvio de finalidade da Abin são graves e figuram entre os elementos da investigação sobre a trama golpista. Como ex-diretor-geral da agência, Ramagem ocupava uma posição estratégica com acesso a informações sensíveis e estruturas de inteligência do Estado. A negação do uso político da Abin busca refutar a tese de que a estrutura de inteligência nacional teria sido empregada para fins particulares ou partidários, o que configuraria um abuso de poder com sérias implicações para a democracia e a segurança institucional do país. A investigação busca elementos que comprovem ou refutem essas alegações, essenciais para a compreensão da extensão e natureza da suposta trama.
O complexo arcabouço da trama golpista
A trama golpista, no centro das investigações do STF, envolve um conjunto de ações e articulações que, segundo as apurações, visavam desestabilizar as instituições democráticas e impedir a transição de poder. Alexandre Ramagem foi apontado como um dos elos importantes nesse esquema, dada sua proximidade com a cúpula do governo anterior e sua posição de destaque na área de segurança e inteligência. A complexidade do caso se manifesta na pluralidade de envolvidos e na diversidade de crimes imputados, que abrangem desde a tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito até atos de golpe de Estado, passando por crimes de responsabilidade e violações de direitos. A retomada do processo contra Ramagem, após a perda de seu mandato, representa um avanço significativo na tentativa de desvendar todas as camadas dessa trama e responsabilizar os envolvidos, reforçando a atuação do Poder Judiciário.
A condenação anterior e as acusações pendentes
Antes mesmo deste novo depoimento, Alexandre Ramagem já havia sido condenado a 21 anos de prisão. A sentença foi proferida por crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Essas condenações sublinham a gravidade das acusações e a solidez das evidências apresentadas contra ele em instâncias anteriores, demonstrando a seriedade com que a Justiça brasileira tem tratado os eventos relacionados à trama. No entanto, parte das acusações estava suspensa devido à imunidade parlamentar que lhe era conferida pelo mandato de deputado federal. Especificamente, os crimes de dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da União, bem como a deterioração de patrimônio tombado, ambos relacionados aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, estavam em compasso de espera. A Constituição Federal prevê esse benefício para crimes ocorridos após a diplomação, que para Ramagem se deu em dezembro de 2022. Com a perda do mandato, a proteção caiu, e essas acusações foram reativadas, permitindo que o ex-diretor da Abin possa ser condenado novamente por esses fatos adicionais, ampliando o escopo de sua responsabilidade penal e as possíveis consequências de suas ações.
Imunidade parlamentar e a perda do mandato
A imunidade parlamentar, um direito fundamental para o exercício livre do legislador, garantiu a Alexandre Ramagem a suspensão de parte das acusações criminais enquanto ele detinha o mandato de deputado federal. Este instituto constitucional visa proteger a liberdade de expressão e a independência dos membros do Congresso, evitando perseguições políticas e assegurando que possam exercer suas funções sem constrangimentos indevidos. No entanto, ela não é absoluta e possui limites claros, como a impossibilidade de proteger atos anteriores à diplomação ou em casos de flagrante delito. A suspensão dos processos é um mecanismo que impede o andamento de determinadas ações penais contra parlamentares, garantindo que suas atividades legislativas não sejam comprometidas por litígios judiciais. A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, em uma decisão formal no final do ano passado, declarou a perda do mandato de Ramagem. Esta medida é uma consequência direta da condenação criminal transitada em julgado, conforme determina a Constituição Federal em seu artigo 55, que estabelece a perda do mandato em caso de condenação criminal definitiva. A perda do mandato teve como efeito imediato a remoção da imunidade, reativando as acusações que estavam suspensas e permitindo que a Justiça prossiga com os processos que aguardavam essa condição, restabelecendo a plenitude da atuação judicial sobre os atos do ex-parlamentar.
A fuga para os Estados Unidos e o passaporte diplomático
A decisão de Alexandre Ramagem de fugir do país em setembro do ano passado para os Estados Unidos é um elemento crucial na complexidade de seu caso. A fuga ocorreu com o objetivo declarado de evitar o cumprimento da pena já imposta e de se esquivar de novas acusações, caracterizando uma tentativa de burlar o sistema judicial brasileiro. Tal atitude se deu apesar de uma proibição explícita de saída do país imposta pelo próprio STF durante a investigação da trama golpista. Essa desobediência a uma ordem judicial reforça a imagem de alguém que busca escapar da responsabilização penal, criando um precedente perigoso para a aplicação da lei.
Detalhes da evasão do país
Segundo informações da Polícia Federal (PF), o ex-deputado utilizou uma rota de fuga que envolveu a fronteira com a Guiana, um país vizinho ao Brasil. Este percurso, menos convencional e possivelmente menos monitorado do que as rotas aéreas diretas, pode ter sido escolhido na tentativa de burlar controles migratórios mais rigorosos. Após cruzar a fronteira terrestre, Ramagem teria embarcado para os Estados Unidos, utilizando para isso um passaporte diplomático. A posse e o uso deste documento, que normalmente confere privilégios e facilidades em viagens internacionais para agentes públicos em missões oficiais, levanta sérios questionamentos sobre sua legitimidade para tal uso, dada sua condição de investigado e com restrição de viagem. A PF informou que o passaporte diplomático de Ramagem não havia sido apreendido antes de sua fuga. A não apreensão do documento, mesmo após ordens judiciais de restrição de movimentação e frente às acusações graves, sugere uma falha ou lacuna nos procedimentos de controle, permitindo sua saída do país e a permanência nos EUA como foragido.
Desdobramentos e futuro do processo
O depoimento de Alexandre Ramagem ao STF, ainda que virtual e na condição de foragido, representa um avanço importante nas investigações da trama golpista. A Justiça brasileira, através do STF, demonstra a capacidade de prosseguir com os trâmites legais, mesmo diante de obstáculos como a ausência física do réu e sua permanência em outro país. A reativação das acusações suspensas e a continuidade da ação penal reforçam a determinação em apurar todas as responsabilidades e garantir que a lei seja aplicada a todos os envolvidos, independentemente de sua posição política anterior. Os desdobramentos futuros envolverão a análise do depoimento de Ramagem pelos ministros, a coleta de novas provas, e a possibilidade de emissão de um pedido formal de extradição, caso as autoridades brasileiras entendam que há elementos suficientes para tal e que o governo dos Estados Unidos deva cooperar com a entrega do ex-deputado, conforme acordos internacionais. A condenação anterior e as novas acusações somam-se a um cenário jurídico complexo, com potencial para impactar profundamente a carreira política e a liberdade de Ramagem. Este caso continua a ser um termômetro da capacidade do Estado de Direito em lidar com crimes de alta gravidade envolvendo ex-agentes públicos.
Continue acompanhando os próximos capítulos deste caso complexo e seus impactos na política nacional.