O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), acompanha de perto os desdobramentos que antecedem o próximo ciclo das eleições presidenciais, buscando consolidar sua posição para uma eventual reeleição. Publicamente, o mandatário tem reiterado sua intenção de disputar novamente o Palácio do Planalto, motivado pelo desejo de evitar que a sucessão seja entregue a um nome do campo político oposto. Contudo, essa insistência, apresentada como estratégica, também revela um ambiente de fragilidade interna no governo, com os atos de fala servindo mais como uma tentativa de contenção de danos e minimização de impactos negativos sobre o lulopetismo. Os cálculos eleitorais de Lula e de sua equipe foram profundamente afetados por uma notícia recente que trouxe desânimo e atrito ao Planalto: a confirmação de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), não será candidato à Presidência da República em 2026. A decisão, embora parcialmente antecipada por indicativos, pegou a cúpula governista de surpresa pela sua precocidade, reconfigurando completamente o tabuleiro político e as projeções de intenções de voto para a próxima disputa presidencial.
Reeleição e o desafio da sucessão
A insistência de Lula e a ausência de um plano B
A estratégia de Lula de se posicionar como candidato à reeleição em 2026, com o argumento de barrar o avanço da direita, tem sido uma constante em suas declarações públicas. Essa postura, embora vista como um movimento tático, também expõe uma vulnerabilidade significativa dentro do campo governista: a inexistência de um plano B para a sucessão presidencial. Ao longo de anos, o Partido dos Trabalhadores não conseguiu construir uma liderança alternativa robusta, capaz de assumir o protagonismo em um cenário de ausência de Lula. Essa lacuna não é fortuita. O histórico político de Lula demonstra uma tendência em preservar sua posição como líder central da esquerda brasileira, evitando o fortalecimento de figuras internas que pudessem, eventualmente, eclipsá-lo ou disputar sua hegemonia. Essa concentração de poder, que garantiu sua proeminência por décadas, agora se apresenta como um dilema para 2026, limitando as opções do partido e tornando a reeleição do atual presidente quase um imperativo estratégico, apesar dos riscos associados à sua idade e ao desgaste natural do mandato.
Avaliação negativa do governo e o ceticismo do mercado
A situação para 2026 se agrava consideravelmente quando analisados os indicadores da atual gestão. Internamente, o Planalto já tem conhecimento de que as avaliações do governo Lula 3 não são positivas em nenhuma das principais áreas desde o início do mandato, em 2023. Não houve, até o momento, uma pasta que pudesse ser apresentada como uma vitrine eleitoral sólida para um eventual Lula 4. A desaprovação está elevada em todas as regiões do país e distribuída de forma abrangente, o que restringe significativamente a capacidade de reação do governo e reduz as margens de manobra para a construção de uma narrativa de recuperação e sucesso. Esse ambiente de desgaste já transcende as fronteiras do campo político e atinge o mercado financeiro. Na Faria Lima, a leitura dominante é de que a reeleição de Lula se tornou improvável. O setor financeiro, que opera com base em projeções e expectativas de longo prazo, não tem demonstrado sinais de confiança em uma eventual continuidade do atual governo em Brasília, e essa percepção tem sido um fator influente nas apostas e planejamentos para o período pós-2026, impactando inclusive a cotação de ativos e investimentos.
O impacto da saída de Tarcísio de Freitas
A mudança no tabuleiro político
Foi nesse cenário de incertezas e avaliações desfavoráveis que a notícia da desistência de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, de concorrer à Presidência da República em 2026, atingiu o Planalto. Embora já houvesse indicativos dessa possibilidade, a confirmação, ocorrida na última semana, gerou um impacto maior do que o esperado no núcleo petista. A preocupação não reside apenas na ausência de Tarcísio do tabuleiro eleitoral, mas principalmente no momento de sua saída. O entorno presidencial não contava com uma retirada tão precoce do governador paulista da lista de pré-candidatos potenciais. A avaliação interna é de que essa “debhanda” antecipada altera drasticamente a dinâmica das pesquisas de intenção de voto e tende a produzir efeitos negativos adicionais sobre os números já complexos de Lula. A estratégia do campo governista previa que Tarcísio e Flávio Bolsonaro permaneceriam nas sondagens até, pelo menos, abril ou maio, possivelmente avançando até junho, o que fragmentaria os votos dos primeiros colocados e manteria Lula mais competitivo em um eixo eleitoral dividido.
Projeções de votos e a ascensão de Flávio Bolsonaro
Com a saída antecipada de Tarcísio de Freitas, essa lógica se rompeu. Dirigentes do PT e de outras legendas de esquerda já trabalham com o temor de que a decisão do governador paulista provoque um deslocamento imediato e significativo de intenções de voto. A expectativa é de que o apoio declarado de Tarcísio transfira uma parcela considerável de seu eleitorado para Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Estima-se que entre 60% e 70% dos votos que hoje seriam atribuídos a Tarcísio passem a se concentrar diretamente no nome do senador. Caso essa projeção se confirme, as consequências para Lula podem ser drásticas. O presidente poderia ser ultrapassado nas principais pesquisas de opinião do país em um intervalo de tempo muito menor do que o previsto anteriormente. Essa unificação precoce da base eleitoral de direita em torno de um único nome representa um desafio formidável, pois impede a diluição de votos que era central na estratégia petista para a manutenção da competitividade de Lula em um cenário eleitoral que se desenhava mais pulverizado.
Cenário de apreensão no Planalto
A péssima notícia, recebida ainda nos primeiros dias do ano, gerou desânimo e atrito nas esferas do Planalto. Entre os aliados mais próximos do presidente, os ares são de profunda apreensão em relação às próximas rodadas de pesquisas eleitorais, especialmente aquelas que devem ser divulgadas entre fevereiro e março. A leitura interna é de que os números, que já não se mostram favoráveis ao governo, inevitavelmente sofrerão novos reveses com a consolidação do eleitorado de direita em torno de Flávio Bolsonaro. Tal cenário aprofunda a crise de expectativa em torno da candidatura de Lula à reeleição e impõe um desafio substancial à sua equipe para redesenhar a estratégia política e eleitoral de modo a mitigar os impactos dessa inesperada reviravolta no cenário pré-eleitoral de 2026.
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