fevereiro 9, 2026

O colapso venezuelano: uma década de perda de quase 90% do PIB

Marcos Rocha

Durante décadas, a Venezuela foi um símbolo de prosperidade na América do Sul, um país abençoado por vastos recursos naturais e uma robusta indústria petrolífera. No entanto, este cenário de riqueza começou a se desintegrar drasticamente sob a influência de políticas econômicas de orientação socialista implementadas pelos governos de Hugo Chávez e, subsequentemente, Nicolás Maduro. A dimensão da perda de riqueza enfrentada pela população venezuelana nas últimas décadas é alarmante, assemelhando-se à de nações devastadas por conflitos armados em larga escala. A queda acentuada do PIB da Venezuela reflete uma erosão profunda da base econômica, transformando o que antes era um pilar de riqueza regional em um estudo de caso sobre os desafios da gestão estatal e a dependência excessiva de uma única commodity. Este declínio representa uma das maiores regressões econômicas da história recente do continente.

A ascensão e o declínio da prosperidade venezuelana

O auge impulsionado pelo petróleo e a semente da fragilidade
No início dos anos 2000, a Venezuela surfou na onda de alta das commodities, um período de bonança que catapultou seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita de US$ 4.776 em 2000 para impressionantes US$ 13.646 em 2010. Este crescimento notável marcou o auge da era Chávez, sustentado principalmente pelos elevados preços internacionais do barril de petróleo, o motor tradicional da economia venezuelana. Contudo, por trás dessa aparente prosperidade, as bases da economia já começavam a se fragilizar. A decisão política de concentrar o controle econômico nas mãos do Estado, uma diretriz iniciada por Hugo Chávez e aprofundada por Nicolás Maduro, semeou as primeiras sementes de um declínio duradouro. Essa opção estratégica, embora vendida como um caminho para a soberania e a distribuição de riqueza, acabou por comprometer a capacidade produtiva do país a longo prazo, criando uma dependência perigosa de um único recurso natural e de uma gestão centralizada ineficiente.

Nacionalizações e a erosão da capacidade produtiva
A estratégia de controle estatal se manifestou em uma extensa onda de nacionalizações, que atingiu não apenas a gigante petrolífera PDVSA, mas também setores vitais como alimentos, telecomunicações e uma vasta gama de indústrias. A promessa era de que a administração política dessas empresas resultaria em maior eficiência e benefício social, mas a realidade foi diametralmente oposta. A gestão estatal, muitas vezes ineficaz e ideologicamente motivada, levou a uma severa queda na produtividade. Acompanhando essa ineficiência, houve um aumento alarmante da corrupção e uma consequente fuga de capitais, minando a confiança de investidores e a capacidade de inovar e expandir. O chavismo apostou na premissa de que a renda do petróleo seria suficiente para sustentar indefinidamente o modelo econômico adotado, desconsiderando a necessidade de diversificação e a criação de um ambiente robusto para a iniciativa privada. Enquanto outras economias da região e do mundo avançavam em complexidade e resiliência, a Venezuela enveredou por um processo de regressão profunda, tornando-se extremamente vulnerável a flutuações no mercado global de petróleo.

O mergulho na crise: a era Maduro e a regressão econômica

O impacto da queda do petróleo e a queda livre do PIB
As fragilidades da gestão estatal venezuelana se tornaram brutalmente evidentes quando os preços internacionais do petróleo começaram a cair drasticamente. O modelo, que havia sido construído sobre a premissa de receitas petrolíferas elevadas e constantes, não resistiu à volatilidade do mercado. Entre 2012, ano em que Nicolás Maduro assumiu o poder após a morte de Hugo Chávez, e 2020, o país experimentou uma queda livre sem precedentes. O PIB per capita, que estava em US$ 12.607 em 2012, despencou para míseros US$ 1.506 em 2020. Em menos de uma década, a riqueza média do venezuelano foi reduzida em quase 90%, um percentual que ilustra a profundidade do colapso econômico. Em termos práticos, a Venezuela em 2020 retornou a níveis nominais de renda semelhantes aos registrados em 1973, apagando, em uma única década de crise, cerca de meio século de avanços econômicos e sociais duramente conquistados. A incapacidade de adaptar a economia e a persistência em políticas ineficazes selaram o destino do país para um período prolongado de adversidade.

O contraste internacional: Venezuela versus o mundo em desenvolvimento
O drama venezuelano se torna ainda mais evidente quando sua trajetória é comparada à de outras nações em desenvolvimento. Em 1990, por exemplo, a China apresentava um PIB per capita equivalente a apenas 13% do registrado na Venezuela. Naquele ano, cada chinês produzia em média US$ 319, enquanto o venezuelano alcançava US$ 2.452. Décadas depois, o cenário se inverteu de forma dramática: em 2024, a China ostentava um PIB per capita de US$ 13.303, enquanto a Venezuela mal alcançava US$ 4.218.

O mesmo tipo de disparidade pode ser observado em relação ao Brasil. Em 1960, o PIB per capita brasileiro, de US$ 235, correspondia a aproximadamente um terço do valor venezuelano à época, um testemunho da então superioridade econômica da Venezuela. Contudo, em meados da década de 2010, mesmo no auge do chavismo e impulsionado também pelo ciclo das commodities, o indicador brasileiro já se aproximava do venezuelano, representando cerca de 80% daquele valor. Atualmente, a renda média no Brasil já supera em mais do dobro a venezuelana, alcançando US$ 10.311. Essas comparações não apenas destacam a profunda regressão venezuelana, mas também sublinham o contraste entre modelos econômicos que priorizaram a diversificação e a abertura de mercado e um modelo que optou pelo controle estatal centralizado e pela dependência de um único recurso.

Perspectivas e o legado de uma política econômica

A persistência de um cenário desafiador
Apesar de uma recuperação modesta e pontual em alguns indicadores econômicos nos últimos anos, a Venezuela segue dramaticamente distante do patamar de prosperidade que já ocupou no passado. Atualmente, o país mantém uma renda média que corresponde a aproximadamente um terço do que foi registrado em seu período de maior bonança. Este cenário de fragilidade econômica persiste mesmo após a escalada de tensões internacionais e a imposição de sanções por parte dos Estados Unidos contra o regime. Tal persistência evidencia que a crise venezuelana possui raízes profundas e estruturais, forjadas ao longo de anos de decisões políticas com um viés socialista que comprometeram de forma duradoura a capacidade produtiva e a resiliência da economia nacional. A reconstrução exigirá não apenas a estabilização macroeconômica, mas uma reorientação fundamental das políticas que moldaram seu declínio, um desafio monumental para o futuro do país.

A trajetória econômica da Venezuela é um estudo de caso contundente sobre as consequências de políticas que priorizam a centralização estatal e a dependência excessiva de recursos naturais em detrimento da diversificação e do estímulo ao setor produtivo privado. De um vizinho rico e próspero, impulsionado pelo petróleo, o país testemunhou uma erosão massiva de sua riqueza, comparável a cenários pós-conflito. A drástica queda do PIB per capita em quase 90% em menos de uma década ilustra a profundidade de uma crise cujas raízes são estruturais e cujos legados ecoarão por gerações, transformando a Venezuela de potência regional em um dos exemplos mais marcantes de regressão econômica no século XXI.

Para aprofundar sua compreensão sobre os complexos desdobramentos de políticas econômicas em nações em desenvolvimento e o cenário geopolítico latino-americano, continue acompanhando nossas análises.

Fonte: https://www.conexaopolitica.com.br

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