fevereiro 8, 2026

O alerta sobre a formação médica sem preparo no brasil

'Estamos formando médicos sem preparo para cuidar de vidas', diz especialista

A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) reverberou como um sinal de alerta crucial para o panorama da educação médica no Brasil. O levantamento, que analisou centenas de cursos, revelou um desempenho insatisfatório em uma parcela significativa das faculdades de medicina do país. Em paralelo, a carência de vagas de residência para absorver o crescente número de recém-formados agrava um cenário onde muitos médicos iniciam a carreira sem a devida especialização. Este quadro, que já era uma preocupação latente entre entidades médicas e profissionais experientes, foi agora corroborado por dados concretos. Um clínico geral atuante em um renomado hospital de São Paulo aponta que os resultados do Enamed apenas confirmaram uma crise antiga e profunda na formação médica brasileira, exigindo uma reflexão urgente sobre o modelo atual de ensino e suas consequências para a saúde pública.

O Enamed e o diagnóstico de um problema crônico

Desempenho insatisfatório: a confirmação de uma realidade
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) não trouxe surpresas para os especialistas da área, mas solidificou com dados o que muitos já percebiam: a baixa qualidade do ensino em diversas instituições de medicina do país. Para o Dr. Alfredo Salim Helito, clínico geral do Hospital Sírio-Libanês, o volume excessivo de faculdades abertas, muitas vezes em localidades sem a infraestrutura adequada, sem um corpo docente devidamente qualificado e sem campos de estágio consistentes, já prenunciava um mau desempenho. As notas 1 ou 2, atribuídas a uma parte considerável das instituições avaliadas, são um reflexo direto dessa expansão desordenada e da falta de critérios rigorosos na oferta de cursos. Ele enfatiza que, embora a prova seja teórica e com questões consideradas básicas, muitos alunos prestes a se formar demonstraram não possuir o domínio mínimo do conhecimento necessário para a prática diária da medicina.

O impacto da baixa formação na segurança do paciente
A falha em demonstrar conhecimento básico em uma avaliação teórica, mesmo sem a componente prática, é um indicativo alarmante. Profissionais que se formam com essa deficiência recebem um registro profissional (CRM) e, com ele, o poder de tomar decisões cruciais sobre a vida dos pacientes. Essa situação é classificada como extremamente grave pelo Dr. Helito. Ele argumenta que, independentemente da metodologia da prova ser a ideal, o fato de tantos estudantes não dominarem conceitos fundamentais ao final da graduação representa um risco imenso para a segurança e a qualidade do atendimento médico oferecido à população. A permissão para atuar sem o preparo adequado compromete diretamente a confiança no sistema de saúde, podendo levar a diagnósticos equivocados, tratamentos inadequados e, em última instância, à piora do quadro clínico dos pacientes.

A dicotomia entre quantidade e qualidade na medicina brasileira

Distribuição e qualidade: os verdadeiros desafios
A discussão sobre um suposto “excesso de médicos” no Brasil é, na visão de especialistas, um equívoco. O problema central não reside na quantidade de profissionais, mas sim na qualidade da formação e na sua distribuição desigual pelo território nacional. Dr. Helito aponta o exemplo de cidades como Manaus, que possuem seis faculdades de medicina, enquanto a maioria dos formados prefere permanecer nos grandes centros urbanos. Regiões do interior, especialmente no Norte e Nordeste, continuam a enfrentar grave carência de profissionais, muitas vezes pela falta de estrutura de trabalho e condições mínimas para o exercício da medicina. A abertura indiscriminada de faculdades privadas, sob o argumento de suprir essa demanda, falha em seu propósito. Sendo instituições caras, acabam atraindo alunos de alto poder aquisitivo, que raramente se dispõem a atuar em áreas remotas ou carentes, perpetuando o desequilíbrio geográfico e social na oferta de serviços de saúde.

O dilema da residência médica e os atalhos profissionais
A dificuldade em acessar a residência médica após a graduação é outro fator crítico que molda o cenário atual. Atualmente, menos de 20% dos formados conseguem uma vaga de especialização no Brasil. Se antes a entrada na faculdade era mais difícil, mas o acesso à residência era mais amplo, hoje o quadro se inverteu drasticamente: a graduação tornou-se mais acessível, mas a residência é extremamente disputada. Essa realidade, somada a uma “cultura de atalhos”, leva muitos recém-formados a iniciar a prática médica sem a formação especializada adequada. A busca por lucro rápido, a abertura de consultórios sem o devido preparo ou a atuação em áreas sem respaldo científico, como terapias hormonais indiscriminadas e procedimentos estéticos sem base médica sólida, são exemplos de práticas que comprometem a integridade e a ética da profissão, desviando o foco da boa prática médica para interesses financeiros e, em muitos casos, expondo pacientes a riscos desnecessários.

Reformas necessárias e o futuro da assistência médica

Sanções e responsabilidades institucionais
Diante dos resultados do Enamed, a discussão sobre a responsabilização das faculdades com baixa performance é inevitável. Embora seja complexo, dado que há alunos bons nessas instituições, o Dr. Helito sugere que o vestibular para essas instituições deveria ser suspenso até que demonstrem uma melhora estrutural e pedagógica comprovada. A medida não visa ao fechamento das faculdades, mas sim a uma exigência inegociável de qualidade, que inclusive geraria um impacto econômico, já que essas instituições dependem das mensalidades para sua sobrevivência. A questão da falha do Ministério da Educação (MEC) ao permitir a abertura indiscriminada de cursos sem critérios técnicos rigorosos – como hospital-escola estruturado, qualidade docente e capacidade assistencial – também é levantada como um ponto crucial, sugerindo que muitas dessas decisões tiveram um viés político em detrimento de um planejamento educacional consistente e da real necessidade social.

A exaustão profissional e o modelo de ensino
Os desafios da formação médica estendem-se à realidade profissional, onde plantões exaustivos e mal remunerados contribuem para um cenário de médicos sobrecarregados e, consequentemente, para um atendimento de baixa qualidade. Essa sobrecarga pode levar à desvalorização da profissão e à busca por alternativas, algumas das quais se afastam da medicina baseada em evidências, culminando em práticas comerciais sem o devido embasamento científico. Para o especialista, o maior erro do modelo atual de ensino médico é a formação de baixa qualidade em muitas instituições, resultando em profissionais sem o preparo adequado para atender às reais necessidades da população brasileira, especialmente na atenção primária, onde a carência e a urgência são mais evidentes.

Perspectivas para a medicina brasileira

O Brasil possui centros de excelência médica e profissionais de altíssimo nível, comparáveis aos melhores do mundo. No entanto, essa medicina de ponta é pouco acessível à grande maioria da população. Quando se analisa a formação massiva de profissionais que chegam ao mercado de trabalho despreparados, o cenário se torna alarmante. A dicotomia entre a excelência isolada e a fragilidade generalizada da formação médica e da assistência básica gera um pessimismo significativo quanto à qualidade do atendimento oferecido à população em geral. É um desafio que exige não apenas ajustes pontuais, mas uma reestruturação profunda e um compromisso inabalável com a qualidade e a ética em todas as etapas da educação e da prática médica no país, garantindo que o direito à saúde seja atendido por profissionais verdadeiramente capacitados e dedicados ao bem-estar da sociedade.

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Fonte: https://jovempan.com.br

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