fevereiro 8, 2026

Lula critica proposta de Trump para nova ONU e defende multilateralismo

Lula deu declaração nesta sexta-feira (23) em discurso na cerimônia do 14º Encontro Nacional ...

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou severas críticas à iniciativa do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de propor a criação de uma nova Organização das Nações Unidas (ONU), em um formato onde ele, segundo Lula, seria o único “dono”. A declaração foi feita em 23 de fevereiro, em Salvador, durante o 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A proposta de Trump, denominada “Conselho de Paz”, foi lançada durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, e inclui um convite para o Brasil integrar o grupo. Apesar da Casa Branca ter estendido o convite, o governo brasileiro mantém uma postura cautelosa, indicando uma provável recusa diante das preocupações com a centralização de poder e a natureza unilateral da iniciativa. A percepção no Planalto é de que a proposta desconsidera os princípios de cooperação global.

A proposta de Trump e a crítica de Lula

O “Conselho de Paz” e suas implicações

A iniciativa do ex-presidente norte-americano Donald Trump de estabelecer um “Conselho de Paz” foi apresentada em um palco de grande visibilidade, o Fórum Econômico Mundial em Davos. Embora os detalhes específicos da estrutura e funcionamento do conselho não tenham sido amplamente divulgados, a interpretação do presidente Lula aponta para uma preocupante centralização de poder. Segundo o líder brasileiro, a proposta de Trump visa a criar uma espécie de “nova ONU” na qual ele próprio se posicionaria como o “dono”, detentor de autoridade singular sobre as decisões globais. Essa visão contrasta radicalmente com o espírito original e a estrutura da Organização das Nações Unidas, que preza pela igualdade soberana dos estados membros e pela tomada de decisões coletivas, ainda que imperfeitas e sujeitas a vetos no Conselho de Segurança.

O governo brasileiro, por meio de seus diplomatas e analistas de política externa, tem examinado a proposta com atenção, identificando dois pontos principais que se mostram como grandes obstáculos para a adesão do Brasil. Primeiramente, os “tópicos centralizadores” propostos por Trump sugerem uma agenda e um método de deliberação que minimizariam a voz e a autonomia de outros países, especialmente nações em desenvolvimento. Em segundo lugar, o aumento do leque de atuação do “Conselho de Paz” para além do conflito na Faixa de Gaza – que, presume-se, seria o ponto de partida ou um dos principais focos – levanta preocupações. A extensão da pauta a outros temas globais sob uma liderança tão singular seria vista como uma tentativa de sobrepor-se às estruturas multilaterais já existentes, como a própria ONU, e de impor uma visão de mundo específica, em detrimento do diálogo e da negociação entre múltiplas partes. A cautela do Planalto diante do convite reflete uma análise profunda sobre os riscos de alinhar-se a uma iniciativa que poderia minar o multilateralismo e a soberania nacional.

A defesa do multilateralismo e a crítica ao unilateralismo

Em seu discurso em Salvador, o presidente Lula não poupou palavras para descrever o atual panorama geopolítico como um “momento muito crítico”. Sua principal preocupação reside na erosão dos princípios do multilateralismo, que, segundo ele, estão sendo substituídos pelo “unilateralismo de Trump”. Essa mudança de paradigma, na visão de Lula, significa o prevalecimento da “lei do mais forte”, onde os interesses e a capacidade de imposição de uma única nação, ou de um líder específico, sobrepujam as regras, as instituições e os acordos construídos coletivamente ao longo de décadas para garantir a paz e a cooperação internacional. Lula argumentou que a própria “carta da ONU está sendo rasgada”, não apenas pela ineficácia de suas estruturas atuais, mas por propostas que visam a desmantelá-la ou substituí-la por arranjos mais autocráticos.

Historicamente, o Brasil, sob a liderança de Lula desde seu primeiro mandato em 2003, tem sido um ferrenho defensor da reforma da Organização das Nações Unidas. A demanda central do Brasil e de outros países emergentes é a expansão do Conselho de Segurança, incluindo a adesão de novos membros permanentes de regiões sub-representadas, como América Latina , África , e Ásia Lula reiterou essa reivindicação, lamentando que, em vez de se avançar nessa correção das assimetrias de poder dentro da ONU, esteja-se caminhando para a criação de uma estrutura alternativa que agravaria ainda mais o problema da representatividade e da concentração de poder. A inclusão de países como México, Brasil e nações africanas é vista como essencial para tornar a ONU uma organização mais democrática e representativa dos anseios globais.

Soberania brasileira e relações internacionais

Recusa a ser “colônia” e a busca por autonomia

A postura crítica de Lula à proposta de Trump se insere em uma visão mais ampla da política externa brasileira, que tem a soberania nacional e a autonomia como pilares inegociáveis. O presidente enfatizou que o Brasil não tem preferência em suas relações com outras nações, buscando parcerias baseadas no respeito mútuo e na igualdade de condições. “O Brasil quer ter relação com os Estados Unidos, Cuba, China, Índia e Rússia, nós não temos preferência, o que a gente não aceitamos é voltar a ser colônia para alguém querer mandar na gente”, declarou Lula. Essa fala ressalta o princípio de que o país sul-americano está aberto ao diálogo e à cooperação com qualquer estado, independentemente de alinhamentos ideológicos ou blocos geopolíticos, desde que essa interação não implique subordinação ou perda de controle sobre seus próprios destinos.

Essa aposta na soberania tem sido uma constante na política externa brasileira, intensificada em momentos de pressão externa. Um exemplo marcante foi em julho, quando o ex-presidente Trump anunciou a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, gerando um atrito comercial significativo. Em resposta a esse tipo de medida unilateral, o governo brasileiro reforça a necessidade de diversificar parcerias e de manter uma voz ativa e independente no cenário global. A recusa em “voltar a ser colônia” não é apenas uma retórica histórica, mas um alerta contemporâneo contra qualquer tentativa de imposição econômica, política ou militar que cerceie a capacidade do Brasil de definir suas próprias prioridades e estratégias de desenvolvimento. A busca por um multilateralismo genuíno é, portanto, uma manifestação prática dessa defesa intransigente da soberania.

Conclusões sobre o cenário geopolítico

A forte manifestação do presidente Lula contra a criação de um “Conselho de Paz” liderado por Donald Trump sublinha a profunda preocupação do Brasil com o futuro da governança global. A crítica transcende a figura de um ex-presidente específico para abordar a essência do que o Brasil considera fundamental para a estabilidade e a justiça internacional: o fortalecimento das instituições multilaterais existentes, como a Organização das Nações Unidas, por meio de reformas que a tornem mais democrática e representativa, em vez de sua substituição por arranjos unilaterais.

A defesa intransigente do multilateralismo e da soberania nacional, expressa na recusa em aceitar qualquer forma de hegemonia ou imposição, posiciona o Brasil como um ator relevante na busca por um equilíbrio de poder mais justo e equitativo no mundo. A visão brasileira de um mundo multipolar, onde diferentes nações dialogam e cooperam em pé de igualdade, emerge como um contraponto direto à “lei do mais forte” e aos impulsos centralizadores. O debate sobre o “Conselho de Paz” e a resposta brasileira são sintomáticos de um embate maior sobre o modelo de ordem internacional que prevalecerá nas próximas décadas, com o Brasil clamando por um caminho de cooperação e inclusão.

Gostaria de aprofundar a discussão sobre o futuro do multilateralismo e o papel do Brasil nesse cenário em constante transformação?

Fonte: https://jovempan.com.br

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