fevereiro 27, 2026

Desconfiança materna salvou Modelo brasileira de rede de Jeffrey Epstein

G1

Aos 38 anos, a ex-modelo gaúcha Gláucia Fekete reflete sobre um convite de trabalho que, por pouco, não a levou para o epicentro de uma rede de exploração sexual global, liderada pelo financista Jeffrey Epstein. Em 2004, com apenas 16 anos, Gláucia foi convidada a participar de um concurso de modelos no Equador, idealizado pelo agente francês Jean-Luc Brunel, figura central no esquema de aliciamento de Epstein. A promessa de um prêmio de US$ 300 mil e contratos internacionais em Nova York atraía jovens de diversos países. Contudo, a persistente desconfiança de sua mãe, Bárbara Fekete, revelou-se um “livramento” crucial, evitando que a adolescente se tornasse mais uma vítima potencial de um sistema que usava o glamour da moda como fachada para o abuso.

Os bastidores do concurso “Models New Generation” no Equador

O recrutamento e a intuição materna

O sonho de Gláucia Fekete de construir uma carreira na moda começou cedo, aos 13 anos, quando foi descoberta pelo olheiro Dilson Stein, conhecido por lançar talentos como Gisele Bündchen. Foi Stein quem apresentou a ideia do concurso “Models New Generation”, realizado no Equador, à família de Gláucia, intermediando o contato com Jean-Luc Brunel. Brunel, à época, não era alvo de investigações policiais, mas anos depois seria acusado de ser um dos principais aliciadores de Jeffrey Epstein, preso na França em 2020 e morto na cadeia em 2022 antes de ser julgado.

A mãe de Gláucia, Bárbara Fekete, expressou desconfiança desde o primeiro momento. Após uma experiência anterior na qual a filha enfrentou dificuldades financeiras em São Paulo, Bárbara relutava em permitir que Gláucia se envolvesse novamente sem garantias sólidas. Para convencer a família, Brunel, então um influente agente de modelos, fez uma visita pessoal à residência dos Fekete em Santa Rosa, no interior do Rio Grande do Sul, a cerca de 500 km de Porto Alegre. Gláucia recorda que Brunel, apesar de falar pouco português, parecia “simpático” e falava com espontaneidade sobre as oportunidades de carreira que oferecia. Ele teria prometido que Gláucia seria a vencedora do concurso e que a viagem traria grande retorno profissional. Apesar das ressalvas, Bárbara finalmente consentiu com a viagem, mas não acompanhou a filha ao Equador.

A competição em Guayaquil e o comportamento de Brunel

No Equador, o concurso reuniu cerca de 50 jovens aspirantes a modelo, com idades entre 15 e 19 anos, em Guayaquil. Houve cobertura local, e o jornal equatoriano El Universo noticiou o evento, que coroou a brasileira Aline Weber, então com 15 anos e hoje uma modelo de renome internacional, como vencedora. Gláucia recorda que os primeiros dias da competição transcorreram sem maiores incidentes. Ela lembra de outras três brasileiras, além de Aline, e de uma jovem brasileira, apresentada como “namorada do Jean-Luc”, que não participava do concurso e era notavelmente menor de idade.

Uma ex-modelo europeia, que participou do mesmo evento aos 16 anos e pediu para ser identificada como Laura, corrobora o relato sobre a jovem brasileira que acompanhava Brunel. Laura descreveu a viagem como “super bem organizada”, com mulheres locais acompanhando o grupo, muitas delas menores de idade. No entanto, o comportamento de Jean-Luc Brunel era peculiar. Gláucia lembra que ele frequentemente circulava pelos ambientes do hotel e exclamava: “Ah, e as brasileiras! As brasileiras, meu Deus, as brasileiras! O tempo todo…”. Laura o descreveu como um “palhaço”, que parecia não realizar trabalho executivo na agência, mas estava sempre cercado de meninas jovens, especialmente as brasileiras. Embora a experiência parecesse “profissional” e “legítima” na época, a retrospectiva revela que Brunel demonstrava um padrão de comportamento focado nas jovens, especialmente as mais vulneráveis de países como Brasil e Leste Europeu.

A presença de Jeffrey Epstein e a rede de aliciamento

Epstein em Guayaquil: evidências documentais

Anos após o concurso no Equador, documentos oficiais revelaram uma conexão ainda mais sombria com o financista Jeffrey Epstein. Embora nem Gláucia nem Laura se recordem de ter visto Epstein durante o evento, registros divulgados pelas autoridades americanas indicam a presença do bilionário em Guayaquil exatamente na época da final do concurso, em agosto de 2004. Um e-mail de Ghislaine Maxwell, cúmplice de Epstein, menciona a viagem dela e de Epstein à cidade e a necessidade de abastecer uma aeronave em 24 de agosto de 2004 – um dia antes da final da competição. Outro e-mail de Larry Visoski, piloto de Epstein, confirma: “Nós fomos para: 24 de agosto, 2004, Guayaquil, Equador.” Há ainda mensagens sobre reservas de hotel e transporte na cidade para o mesmo período. Embora nenhum dos documentos cite diretamente o concurso, a coincidência de datas e a presença de Brunel reforçam a ligação.

O modus operandi: vistos, agências e vulnerabilidade

As investigações subsequentes revelaram o método utilizado por Jean-Luc Brunel para alimentar a rede de exploração sexual de Jeffrey Epstein. Brunel empregava suas agências de modelos – primeiramente a Karin Models e, depois, a MC2, que recebeu investimento do próprio bilionário – como um disfarce para recrutar garotas, muitas delas menores de idade, em diversos países. A estratégia incluía a emissão de vistos de trabalho para os Estados Unidos, custeados por Epstein, para facilitar a viagem dessas jovens. Esse método foi confirmado em ao menos uma ocasião no Brasil.

Uma ex-funcionária da agência MC2, Maritza Vasquez, depôs à Justiça na Flórida em 2010, afirmando que Brunel “levou garotas” a Epstein no Equador, segundo relatos que ouviu de outro funcionário. Vasquez também indicou que Epstein investiu US$ 1 milhão na MC2, e que a agência não era lucrativa, sugerindo que o interesse do bilionário era o acesso às modelos. Modelos europeias que viveram em Nova York e conviveram com agenciadas de Brunel relataram viagens regulares à ilha de Epstein nas Ilhas Virgens Americanas, onde “tudo era de graça e recebiam massagens gratuitas sempre que queriam”. Observações feitas por modelos revelam que Brunel focava em garotas de países ricos, mas as brasileiras e do Leste Europeu eram as mais visadas, parecendo ser as mais vulneráveis e cujas finanças Brunel controlava.

A conexão brasileira e o desfecho

O risco evitado e a gratidão pela mãe

Após o concurso no Equador, Gláucia foi informada de que não ganharia o prêmio alegando “dois ou três centímetros de quadril acima do permitido”. Ela começou a desconfiar quando percebeu que não conseguia se comunicar com a família, apesar de um acordo pré-viagem para manter contato constante. Dias depois, uma irmã conseguiu contatar o hotel. Antes de voltar ao Brasil, Gláucia recebeu uma proposta de Brunel para viajar com ele aos EUA, com tudo pago, para “participar de shows”. O objetivo, ela acreditava, era participar de castings em Nova York. No entanto, sua mãe negou peremptoriamente o pedido. “Não. Nem pensar”, recorda Gláucia a reação de Bárbara.

A ex-modelo se sentiu enganada e, após o episódio, sua mãe a proibiu de seguir a carreira de modelo. “Ela quebrou todo o vínculo com essa rede. Me disse para terminar meus estudos e fazer o que eu quisesse depois”, contou Gláucia. Ela só compreendeu a gravidade da situação anos depois, ao ser contatada por jornalistas que investigavam Jeffrey Epstein e suas ligações com Brunel. Ao revisitar a proibição materna, Gláucia hoje expressa profunda gratidão: “Minha mãe me salvou”. Bárbara, por sua vez, ao saber da real natureza de Brunel e das acusações contra ele, afirmou: “Eu tinha uma coisa na minha cabeça, que isso não era coisa certa. Não poderia ser. Procuravam só crianças, menores. Infelizmente acharam a minha filha.”

Ramificações e investigações no Brasil

Os documentos e depoimentos revelam uma conexão mais profunda da rede de Epstein e Brunel com o Brasil. A ex-contadora Maritza Vasquez afirmou em depoimento que Epstein também realizava viagens ao Brasil com Brunel e que eles tinham contatos para recrutar garotas no país para fins de prostituição. Uma brasileira que os conhecia confirmou essa informação. Segundo Vasquez, quatro garotas brasileiras, sendo ao menos duas menores de idade (entre 13 e 15 anos), foram levadas por Brunel para uma festa na casa de Epstein.

Em 2016, e-mails indicam que Jeffrey Epstein chegou a discutir a criação de um concurso de moda no Brasil para atrair garotas “caipiras” e considerou comprar agências de modelos para ter acesso direto a elas, embora a ideia não tenha avançado. Após revelações sobre as conversas de Epstein com diversas brasileiras e até pagamentos a essas mulheres, o Ministério Público Federal abriu uma investigação para apurar a existência de uma rede de aliciamento de mulheres para Epstein no país. Brunel, em uma aplicação de visto para os EUA em 2014, defendeu a relevância do concurso “Models New Generation”, alegando que foi transmitido por diversos canais de televisão, inclusive pela “maior e mais popular rede de televisão do Brasil”. No entanto, não foram encontrados registros que confirmem essa cobertura televisiva.

Conclusão

A história de Gláucia Fekete e o concurso “Models New Generation” no Equador são um testemunho perturbador da extensão e do método de operação da rede de Jean-Luc Brunel e Jeffrey Epstein. O que parecia ser uma oportunidade brilhante no mundo da moda para jovens talentosas era, na verdade, uma fachada cuidadosamente orquestrada para o aliciamento e a exploração. A intuição e a firmeza de uma mãe desempenharam um papel vital ao proteger sua filha de um destino trágico, ressaltando a importância da vigilância e do discernimento diante de propostas aparentemente sedutoras. As evidências documentais e os depoimentos subsequentes desvelam a presença ativa de Epstein e Brunel na América do Sul, incluindo o Brasil, na busca por vítimas, e reforçam a dimensão global de seus crimes.

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Fonte: https://g1.globo.com

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