A imagem de Yawa Sumpa, uma mãe indígena achuar, recebendo os restos mortais de sua filha de apenas um mês de idade em uma caixa de papelão, em 29 de novembro, chocou o Equador e rapidamente se tornou um símbolo pungente da profunda crise da saúde no país. A bebê havia falecido poucas horas após ser internada no Hospital Geral de Macas, na província amazônica de Morona Santiago, devido a um problema respiratório. Sem recursos ou familiaridade com a língua e os procedimentos urbanos, Sumpa encontrou-se desamparada, a centenas de quilômetros de sua comunidade. A fotografia, que mostra a caixa improvisada sendo transportada para Taisha, uma localidade a três horas de ônibus de Macas, gerou uma onda de indignação nacional e expôs as falhas sistêmicas que afligem a saúde pública equatoriana, evidenciando uma realidade de desassistência e precariedade que transcende as fronteiras provinciais e atinge diretamente a dignidade dos cidadãos.
O drama de Yawa Sumpa e a indignação nacional
O adeus em uma caixa de papelão
A saga de Yawa Sumpa começou com a busca desesperada por socorro médico para sua filha. Após a trágica morte da bebê no Hospital Geral de Macas, na Amazônia equatoriana, a equipe médica orientou a mãe a providenciar um caixão. Contudo, em uma cidade estranha, sem recursos financeiros e com dificuldades de comunicação em espanhol, Sumpa estava em uma situação de vulnerabilidade extrema. Incapaz de adquirir um caixão adequado, ela retornou ao hospital, onde lhe foi entregue o corpo da filha em uma caixa de papelão selada com fita adesiva, ostentando a mensagem “Trate com cuidado”. A jornada de Sumpa, carregando essa caixa, começou no parque principal de Macas, ponto de partida de vans e ônibus para Taisha, e dali, a pequenos aviões que serviriam de conexão para sua aldeia.
Um membro da comunidade achuar de Kaiptach, que inicialmente prestou ajuda à mãe e registrou a chocante fotografia, expressou sua revolta. “Como é possível que a deixem viajar assim, com um bebê morto em uma caixa de papelão?”, questionou, lamentando a forma como são tratados. “É doloroso ver a forma como os médicos nos tratam. É ultrajante e muito triste, pois somos seres humanos.” A imagem rapidamente se espalhou, desencadeando um debate nacional sobre a humanidade e a eficiência do sistema de saúde.
A assistência emergencial e o apoio da comunidade
Diante da repercussão e da situação de desamparo de Yawa Sumpa, a municipalidade de Taisha interveio. Ofereceram um caixão digno e custearam o voo de regresso para a comunidade da mãe, providenciando o apoio que o sistema de saúde não havia oferecido. Embora a prática de hospitais não fornecerem caixões seja comum no Equador, jornalistas, como Christian Sánchez Mendieta, do El Mercurio, ressaltam que as instituições de saúde deveriam atuar na intermediação de doações junto aos municípios ou prefeituras, por meio de seus setores de assistência social.
Sánchez Mendieta, cuja equipe jornalística esteve em Morona Santiago investigando a morte de dez crianças por leptospirose – uma doença com bom prognóstico quando tratada –, afirmou sentir que existe uma espécie de racismo contra as populações indígenas. “São populações que têm costumes totalmente diferentes e moram em condições insalubres, mas sinto que existe uma espécie de racismo contra elas”, declarou. A gravidade do incidente de Yawa Sumpa levou o Ministério Público de Saúde do Equador a anunciar medidas para impor sanções às pessoas envolvidas na irregularidade, em resposta à indignação pública.
Um sistema em colapso: falta de recursos e má gestão
Orçamento minguante e desabastecimento generalizado
A crise da saúde pública no Equador não é um fenômeno isolado, mas o resultado de um declínio gradual, acentuado pela má gestão e cortes orçamentários. A congressista María Verónica Iñiguez Gallardo, da província de Loja, detalhou as significativas reduções no orçamento da saúde: de US$ 3,219 bilhões em 2023, caiu para US$ 2,959 bilhões em 2024 e está projetado para US$ 2,798 bilhões em 2025. Além disso, dados do Banco Mundial indicam que os recursos para operação e manutenção do sistema sanitário também foram reduzidos em 2021 e 2022. O mais alarmante, segundo Iñiguez Gallardo, é a gestão desses fundos, com apenas 34,6% do orçamento utilizado até julho de 2025, deixando hospitais e centros de saúde operando com recursos mínimos.
O desabastecimento de insumos e medicamentos atingiu níveis críticos. No final de setembro, hospitais públicos reportavam um estoque de apenas 45% de medicamentos, incluindo itens básicos como insulina, morfina, amoxicilina e tratamentos contra o câncer. A situação forçou o governo a declarar estado de emergência no Instituto Equatoriano de Previdência Social (IESS) e no Ministério da Saúde.
Consequências devastadoras para os pacientes
A escassez de recursos tem consequências diretas e trágicas para os pacientes. A congressista Iñiguez Gallardo revelou que, em setembro, nos hospitais Monte Sinai e do Guasmo, os maiores de Guayaquil, a falta de insumos essenciais atingiu 80%. No Hospital Universitário, também em Guayaquil, 18 recém-nascidos morreram após contraírem infecções associadas aos cuidados sanitários, devido à reutilização de cânulas contaminadas, um insumo de custo mínimo (cerca de US$ 1).
Um especialista do Hospital Geral Monte Sinai, que preferiu não se identificar, descreveu a precariedade: “Uma pessoa que venha a ser operada no hospital precisa trazer tudo”, relatou. Faltam agulhas, cânulas, fios de sutura, anestésicos e analgésicos; às vezes, até algodão ou lençóis nas camas. Serviços básicos, como exames de laboratório, estão praticamente paralisados por falta de pagamento. A falta de remédios força famílias a recorrer a agiotas, endividando-se para garantir a sobrevivência de seus entes, numa crise que se estende para toda a estrutura social. Pacientes que dependem de diálise ou insulina enfrentam mobilizações e campanhas para denunciar a escassez. Diabéticos, por exemplo, precisam percorrer várias farmácias para encontrar uma ampola de insulina, muitas vezes dividindo-a por dias, o que pode levar a cetoacidose e, em casos extremos, ao coma diabético. A história de Féliz Aurelio Suqui, um jovem gravemente ferido após uma queda de 15 metros, ilustra a situação: com politraumatismo e pneumotórax, ele foi sugerido a receber alta para aguardar em casa a chegada dos insumos necessários para sua cirurgia.
A rotação de líderes e a falta de direção técnica
A instabilidade na liderança do setor de saúde é outro fator crítico. Somente nos últimos 20 meses, o Equador teve cinco ministros da Saúde. Atualmente, a vice-presidente da República, María José Pinto, ocupa o cargo. Santiago Carrasco, presidente da Federação Nacional de Médicos do Equador, critica veementemente a falta de liderança técnica e a má gestão decorrente da ausência de conhecimento profundo do setor por parte de seus dirigentes. Essa rotação incomum impede a continuidade de políticas públicas eficazes e a implementação de planos de longo prazo para enfrentar os desafios do sistema.
O impacto da pandemia e a fragilidade nas áreas rurais
A herança da COVID-19 e a corrupção
Para muitos especialistas, a pandemia de COVID-19 atuou como um catalisador para o colapso já iminente do sistema de saúde equatoriano. Guayaquil, em particular, foi duramente atingida. A congressista Iñiguez Gallardo lembra que milhares de profissionais de saúde foram demitidos e diversos casos de corrupção na compra de insumos médicos vieram à tona. Marcelo Bortman, ex-especialista em saúde do Banco Mundial, aponta que o país implementou um sistema que reservou os hospitais públicos para o atendimento da COVID-19, delegando as demais patologias ao setor privado. Essa solução gerou uma transferência de fundos dos serviços públicos para custear clínicas particulares, enfraquecendo ainda mais o já precário financiamento público. Para Bortman, um sistema de saúde forte requer recursos humanos adequados, estrutura e financiamento suficiente, elementos que se deterioraram significativamente.
Precariedade nos serviços de saúde rurais
Se a situação nas cidades é alarmante, nas áreas rurais ela se agrava drasticamente. Christian Sánchez Mendieta descreve a escassez de postos de assistência e clínicas gerais no campo. Muitas vezes, é preciso caminhar quatro horas pela floresta para chegar a construções rudimentares de madeira, que carecem dos elementos básicos. Pablo Ponce, diretor do coletivo Violino Vermelho, que trabalha com comunidades indígenas, incluindo os achuar, há cinco anos, ressalta que os médicos nessas regiões são, em sua maioria, recém-formados em residência de medicina comunitária. Ele argumenta pela necessidade de médicos contratados, especialistas, clínicos gerais e pediatras. “Nos postos de saúde da região, não há como fazer um exame de sangue. Não temos garantia de que haja eletricidade”, lamenta Ponce, evidenciando a desproporcionalidade na distribuição de insumos e especialistas, que empurra moradores de áreas remotas, como Yawa Sumpa, a buscar hospitais distantes nas cidades, apenas para encontrar um sistema em crise.
A crise de saúde como tema político
A derrota eleitoral e o foco na saúde
A gravidade da crise da saúde ganhou destaque inesperado na cena política equatoriana. Em 16 de novembro, 13 dias antes da morte da bebê em Macas, o presidente Daniel Noboa convocou uma consulta popular com quatro questões, que variavam da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte ao retorno de bases militares estrangeiras. A resposta foi um categórico “não” para todas as perguntas. Essa derrota foi surpreendente, dada a popularidade de Noboa (52,7% em outubro, segundo Cedatos), e sua reeleição com mais de 55% dos votos oito meses antes. Um dos fatores-chave mencionados para explicar a derrota foi a emergência da crise no setor de saúde como uma preocupação nacional premente, superando até mesmo a habitual discussão sobre segurança e mortes violentas.
Investigação e sanções prometidas
A repercussão do caso de Yawa Sumpa e a indignação generalizada obrigaram as autoridades a agir. O Ministério Público do Equador abriu uma investigação no Hospital Universitário de Guayaquil após a morte de vários recém-nascidos e, em relação ao incidente de Macas, o Ministério de Saúde Pública prometeu medidas para impor sanções aos envolvidos. No entanto, a eficácia dessas medidas e a capacidade do governo de implementar reformas estruturais profundas ainda são incertas, em um cenário de orçamentos apertados, má gestão crônica e um sistema de saúde que luta para se reerguer.
A história de Yawa Sumpa e o adeus em uma caixa de papelão não é um incidente isolado, mas um doloroso símbolo da profunda crise que assola o sistema de saúde do Equador. Revela um quadro de desinvestimento crônico, má gestão e desconsideração pela dignidade humana, especialmente das populações mais vulneráveis. A escassez de medicamentos e insumos básicos, a precariedade das instalações, a falta de liderança técnica e o subfinanciamento são sintomas de um sistema em colapso, que exige uma resposta urgente e abrangente. A saúde emergiu como um tema central no debate político, indicando que a sociedade equatoriana demanda mudanças significativas para garantir o acesso a serviços de qualidade e o respeito aos direitos de todos os cidadãos.
Acompanhe as atualizações sobre a crise da saúde no Equador e entenda as iniciativas para reverter este cenário e restaurar a dignidade no atendimento.
Fonte: https://g1.globo.com