Dois importantes conselheiros do BRB, o Banco de Brasília, renunciaram aos seus cargos na última sexta-feira, 13 de outubro. Leonardo Roberto Oliveira de Vasconcelos e Celivaldo Elói Lima de Sousa, membros titular e suplente do conselho fiscal, respectivamente, deixaram suas posições com efeito imediato, em meio a crescentes investigações sobre as operações do banco. As renúncias ocorrem após a revelação de que ambos teriam sido indicados por um fundo da Reag Investimentos, empresa sob escrutínio por supostas operações fraudulentas envolvendo o Banco Master, e também apadrinhados pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). O episódio acende um alerta sobre a governança da instituição e a transparência em suas indicações.
A controvérsia das renúncias no BRB
Os advogados e o fundo Borneo
Em nota divulgada pelo BRB, os advogados Leonardo Roberto Oliveira de Vasconcelos e Celivaldo Elói Lima de Sousa afirmaram terem tomado ciência da indicação atribuída ao Fundo Borneo, da Reag, somente no dia 11 de outubro. Em suas manifestações, ambos declararam desconhecer integralmente tal indicação, negando qualquer vínculo, relação ou conhecimento acerca do referido fundo, bem como de seus representantes ou administradores. A posição dos advogados contrasta com o registro em ata da reunião de março de 2025, na qual foram eleitos, e que já apontava a ligação com o fundo da Reag.
A Reag Investimentos, por sua vez, é alvo de investigações complexas. O Fundo Borneo, administrado pela Reag, tornou-se acionista do BRB em 2024, período em que o Banco de Brasília iniciou a compra de carteiras do Banco Master, em conjunto com Daniel Vorcaro, então proprietário do Master. Investigadores suspeitam que a aquisição de ações do BRB por este fundo pode ter servido para inflacionar o valor do banco distrital, viabilizando a controversa compra das carteiras do Master. O BRB, em seu comunicado que anunciava as renúncias, “reafirmou que conduz suas atividades com responsabilidade, ética e transparência”, e “reiterou seu compromisso de manter seus acionistas e o mercado devidamente informados sobre atos e fatos relevantes”, buscando tranquilizar o mercado em um momento de turbulência.
O elo com Ibaneis Rocha e as investigações da CVM
A ascensão e as correções nas indicações
A nomeação dos advogados para o conselho fiscal do BRB não esteve isenta de polêmicas desde o início. Reportagens anteriores haviam revelado que o governador Ibaneis Rocha (MDB) havia indicado sua chefe de gabinete, Juliana Monici Souza Pinheiro, para uma das vagas do conselho, além dos advogados Leonardo Oliveira de Vasconcelos e Celivaldo Elói de Sousa como titular e suplente para outra. Curiosamente, foi o Fundo Borneo, administrado pela Reag e que se tornou acionista do BRB, que posteriormente “assumiu a paternidade” da indicação dos dois advogados.
Essas conexões chamaram a atenção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que passou a investigar Ibaneis e Juliana. Ambos foram tornados réus em um processo sigiloso, inserido no contexto da investigação mais ampla sobre o caso Banco Master. Após a repercussão das reportagens, o BRB foi formalmente questionado pela CVM a respeito das indicações ligadas ao fundo da Reag, intensificando a pressão sobre a instituição. O histórico das indicações é confuso: Juliana Monici foi inicialmente indicada como representante de acionistas preferencialistas em 14 de novembro de 2024, sendo eleita. Posteriormente, o banco alegou “erro material” e corrigiu sua indicação para representante do controlador (o Governo do Distrito Federal). Na mesma data, o GDF indicou Leonardo e Celivaldo, mas a deliberação de seus nomes foi suspensa até parecer favorável do Comitê de Elegibilidade do BRB. Em 12 de março de 2025, na retomada da assembleia, a correção de Juliana foi formalizada e, então, o fundo Borneo FIP Multiestratégia, da Reag, indicou Leonardo e Celivaldo para as vagas destinadas aos acionistas preferencialistas, consolidando uma intrincada teia de interesses e representações.
As complexas operações com o Banco Master e a Reag
Fraudes, liquidação e a Operação Compliance Zero
A situação no BRB está intrinsecamente ligada às operações fraudulentas envolvendo o Banco Master, um caso que ganhou proporções alarmantes. O Banco de Brasília começou a adquirir carteiras do Master em meados de 2024. A Polícia Federal (PF) apontou a existência de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes, que teriam sido negociados entre janeiro e junho de 2025. Em março do mesmo ano, o BRB tentou comprar o Banco Master, mas a operação foi barrada pelo Banco Central em setembro, diante das suspeitas de irregularidades.
A PF deflagrou uma série de investigações sobre fraudes nessas operações, culminando na liquidação do Banco Master e na prisão de seu proprietário, Daniel Vorcaro, por dez dias. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que foi indicado por Ibaneis Rocha, foi afastado do cargo e também se tornou alvo das investigações. As relações da Reag Investimentos com esses esquemas são profundas. Além de ser investigada na Operação Compliance Zero por envolvimento com o Banco Master, a Reag também é alvo da PF na Operação Carbono Oculto. Nesta última, a empresa é suspeita de abrigar fundos utilizados por indivíduos ligados à sonegação fiscal e ao crime organizado no setor de combustíveis. Essa complexidade de investigações em várias frentes demonstra a seriedade e o alcance das supostas irregularidades que cercam o cenário financeiro e político do Distrito Federal.
O papel do conselho fiscal e o perfil dos conselheiros
Deveres, omissões e o passado dos advogados
O Conselho Fiscal, apesar de não possuir poder decisório sobre os negócios do BRB, tem a função primordial de fiscalizar os atos da gestão do banco. Seus membros devem solicitar informações, questionar resultados contábeis e zelar pela conformidade da instituição financeira. Contudo, no caso das operações com o Banco Master, os negócios foram aprovados pela diretoria e, notavelmente, não foram questionados pelo Conselho Fiscal, levantando dúvidas sobre a eficácia de sua atuação neste período crítico.
O perfil dos advogados renunciantes também é relevante. Leonardo de Vasconcelos, advogado cearense, chegou ao conselho inicialmente como indicação do governo Ibaneis, tornando-se posteriormente o nome do fundo da Reag. Ele possui um histórico de prestígio, tendo sido conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entidade presidida por Ibaneis Rocha no Distrito Federal. Em maio do ano passado, Vasconcelos tomou posse como desembargador substituto do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). Celivaldo Elói de Sousa, por sua vez, atua como advogado criminalista em Brasília. Em 2024, concorreu a um cargo de diretor da OAB-DF em uma chapa apoiada por Ibaneis, que foi derrotada. Celivaldo também já defendeu um ex-assessor especial da Secretaria de Saúde do DF, preso por suspeita de fraude. Essas carreiras pregressas adicionam mais camadas à complexa rede de relacionamentos e influências que marcam o caso.
Conclusão
As renúncias dos conselheiros do BRB, Leonardo Roberto Oliveira de Vasconcelos e Celivaldo Elói Lima de Sousa, em meio a um turbilhão de investigações, lançam luz sobre as intricadas relações entre o poder público e o setor financeiro. A controvérsia envolvendo o governador Ibaneis Rocha e a Reag Investimentos, com seus fundos como o Borneo, destaca a urgência de maior transparência e rigor na indicação para cargos de fiscalização em instituições bancárias estatais. As apurações da CVM e da Polícia Federal sobre as operações com o Banco Master e as supostas fraudes ressaltam a necessidade de um escrutínio contínuo para garantir a integridade do sistema financeiro e a confiança dos cidadãos. Este episódio serve como um lembrete contundente dos desafios na governança corporativa e da importância da fiscalização independente em um cenário de grandes movimentações financeiras.
Para acompanhar os desdobramentos desta e de outras investigações que moldam o cenário político e econômico brasileiro, mantenha-se informado.
Fonte: https://jovempan.com.br