fevereiro 9, 2026

Conflito EUA-Irã: sete cenários potenciais e seus desdobramentos

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A possibilidade de um ataque dos Estados Unidos ao Irã tem sido um ponto de constante tensão na geopolítica global. Com o histórico de escalada de retórica entre os líderes de ambos os países, a iminência de uma ação militar, embora com alvos potencialmente previsíveis, carrega um desfecho incerto e multifacetado. Analistas e especialistas em segurança internacional projetam diferentes caminhos que essa confrontação poderia seguir, cada um com implicações profundas para o Irã, o Oriente Médio e a estabilidade mundial. A análise detalhada desses cenários é crucial para compreender a complexidade de uma potencial intervenção militar e seus desdobramentos a longo prazo. As discussões abrangem desde transições democráticas otimistas até o risco de colapso e caos regional generalizado.

Desfechos internos e a transição política iraniana

Ataques cirúrgicos e a esperança de democracia

Um dos cenários mais otimistas prevê que as forças aéreas e navais dos EUA realizariam ataques limitados e de precisão. Os alvos incluiriam bases militares do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), unidades Basij – uma força paramilitar sob controle do IRGC – além de locais de lançamento e armazenamento de mísseis balísticos e instalações do programa nuclear iraniano. A expectativa, nesse panorama, seria a de um regime já enfraquecido, que, após os ataques, colapsaria e passaria por uma transição gradual para uma democracia genuína, permitindo que o Irã se reintegrasse à comunidade internacional.

No entanto, a história recente demonstra a fragilidade de tais projeções otimistas. As intervenções militares ocidentais no Iraque e na Líbia, embora tenham derrubado ditaduras brutais, não resultaram em transições suaves para a democracia, mas sim em anos de caos e derramamento de sangue. Ao contrário de outros exemplos, a Síria, que conduziu sua própria revolução e derrubou o presidente Bashar al-Assad sem apoio militar ocidental, tem obtido resultados melhores até o momento, sugerindo que o modelo de mudança interna pode ser mais complexo do que a intervenção externa.

A moderação forçada do regime

Este cenário, por vezes denominado “modelo venezuelano”, sugere que uma ação rápida e contundente dos EUA poderia manter o regime no poder, mas o obrigaria a moderar significativamente suas políticas. No contexto iraniano, isso significaria a sobrevivência da República Islâmica, o que desagradaria parte da população, mas o país seria forçado a reduzir o apoio a milícias violentas em todo o Oriente Médio, encerrar ou limitar seus programas nucleares e de mísseis balísticos, e aliviar a repressão a protestos internos.

Contudo, a probabilidade desse desfecho é considerada baixa. A liderança da República Islâmica demonstrou uma resistência notável a mudanças ao longo de 47 anos, com poucas indicações de que estaria disposta ou capaz de alterar seu curso de forma tão drástica sob pressão externa. A complexidade do sistema político iraniano e a profunda ideologia que sustenta o regime tornam a moderação forçada um caminho improvável, dada a sua intransigência histórica.

Colapso do regime e ascensão militar

Este é considerado por muitos como o desfecho mais provável. Embora o regime do Irã seja impopular para uma parcela significativa da população, e ondas sucessivas de protestos o tenham enfraquecido ao longo dos anos, existe um vasto e influente aparato de segurança do Estado com interesse na manutenção do status quo. As principais razões pelas quais os protestos internos não conseguiram derrubar o regime incluem a ausência de deserções militares significativas em favor dos manifestantes e a disposição inabalável das autoridades em usar força e brutalidade sem restrições para suprimir qualquer oposição. Na confusão que se seguiria a eventuais ataques dos EUA, é possível que o Irã acabe governado por um forte regime militar, composto em grande parte por integrantes da Guarda Revolucionária. Tal desfecho evitaria um vácuo de poder imediato, mas poderia não significar uma mudança fundamental na orientação estratégica do país.

A retaliação iraniana e o impacto regional

Ataques a bases americanas e nações aliadas

O Irã prometeu retaliar qualquer ataque dos EUA, com seus líderes afirmando que “seu dedo está no gatilho”. Embora o país esteja em clara desvantagem diante do poderio da Marinha e da Força Aérea americana, o Irã poderia reagir com seu arsenal de mísseis balísticos e drones, muitos deles ocultos em cavernas, no subsolo ou em montanhas remotas, dificultando a sua neutralização. Existem bases e instalações dos EUA espalhadas ao longo do lado árabe do Golfo, especialmente no Bahrein e no Catar, que seriam alvos óbvios. Além disso, o Irã poderia, se assim decidisse, atingir infraestruturas críticas de nações que considerasse cúmplices de uma ofensiva americana, como a Jordânia. O devastador ataque com mísseis e drones contra instalações petroquímicas da Saudi Aramco, em 2019, atribuído a uma milícia apoiada pelo Irã no Iraque, demonstrou a vulnerabilidade dos vizinhos árabes diante da capacidade balística iraniana. Os vizinhos do Irã no Golfo, todos aliados dos EUA, estão, compreensivelmente, apreensivos.

O bloqueio do Golfo: minas marítimas

A ameaça de minagem do Golfo Pérsico paira há muito tempo sobre o transporte marítimo global e o fornecimento de petróleo. Esse risco se manifestou de forma notória durante a Guerra Irã-Iraque (1980-88), quando o Irã instalou minas em rotas de navegação, exigindo a intervenção de navios caça-minas de marinhas estrangeiras para garantir a segurança. O estreito de Ormuz, entre Irã e Omã, é um ponto de gargalo crítico por onde passam anualmente cerca de 20% das exportações mundiais de gás natural liquefeito (GNL) e entre 20% e 25% do petróleo e derivados petrolíferos. O Irã já realizou exercícios para a rápida implantação de minas marítimas, e caso colocasse essa capacidade em prática, o impacto sobre o comércio mundial e os preços do petróleo seria inevitável e devastador, com repercussões econômicas globais.

Ameaça assimétrica à Marinha dos EUA

Um cenário que preocupa a Marinha dos EUA é o chamado “ataque enxame”. Nesse tipo de ofensiva, o Irã lançaria simultaneamente um grande número de drones explosivos e embarcações torpedeiras rápidas contra um ou múltiplos alvos, de modo que nem mesmo as formidáveis defesas de curto alcance da Marinha dos EUA conseguissem eliminar todos a tempo. A Marinha da Guarda Revolucionária substituiu há muito tempo a Marinha iraniana convencional no Golfo e suas tripulações concentraram grande parte de seu treinamento em guerra não convencional, ou “assimétrica”, buscando formas de superar ou contornar as vantagens tecnológicas de seu principal adversário, a Quinta Frota da Marinha dos EUA. O afundamento de um navio de guerra americano, acompanhado da possível captura de sobreviventes de sua tripulação, seria uma humilhação enorme para os EUA. Embora esse cenário seja considerado improvável, precedentes históricos como o destróier USS Cole, danificado por um ataque suicida da Al-Qaeda em 2000 que matou 17 marinheiros, e o USS Stark, atingido por engano por mísseis iraquianos em 1987, com 37 marinheiros mortos, demonstram a vulnerabilidade de embarcações de guerra mesmo em contextos menos hostis.

O risco de colapso e caos regional

Irã em desordem: cenário de guerra civil e fragmentação

Este é um risco muito real e uma das principais preocupações de países vizinhos como o Catar e a Arábia Saudita. Além da possibilidade de uma guerra civil generalizada, semelhante às vivenciadas pela Síria, Iêmen e Líbia, existe também o risco de que, em meio ao caos e à confusão de um colapso do regime, tensões étnicas transbordem para conflitos armados. Minorias como curdos, balúchis e outras buscaríam proteger seus próprios grupos diante de um vácuo de poder em escala nacional, fragmentando ainda mais o país. Grande parte do Oriente Médio certamente ficaria satisfeita em ver o fim da República Islâmica, especialmente Israel, que já realizou golpes significativos contra os aliados do Irã na região e teme uma ameaça existencial representada pelo programa nuclear iraniano. No entanto, ninguém deseja que o país mais populoso do Oriente Médio, com cerca de 93 milhões de habitantes, mergulhe no caos, desencadeando uma crise humanitária e de refugiados de proporções catastróficas, com repercussões em toda a região e além.

Implicações globais e o dilema final

A análise dos cenários demonstra a complexidade e os perigos inerentes a uma potencial intervenção militar no Irã. Os desdobramentos, que variam desde uma transição democrática improvável até a instabilidade regional generalizada e o caos interno, evidenciam que não há um caminho simples ou previsível para tal confronto. O maior perigo reside na possibilidade de que decisões sejam tomadas por motivos de prestígio ou cálculos políticos, como a mobilização de forças militares próximas às fronteiras iranianas, dando início a uma guerra sem um desfecho claro e com consequências imprevisíveis e potencialmente danosas para a região e para a ordem global. A escalada das tensões exige uma cuidadosa avaliação de todos os riscos e benefícios antes de qualquer ação.

Para aprofundar a compreensão sobre os cenários geopolíticos no Oriente Médio e acompanhar os próximos desdobramentos, mantenha-se informado através de nossas análises contínuas.

Fonte: https://g1.globo.com

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