março 5, 2026

Câmara mantém Glauber e Zambelli; aliados de Lula vão ao STF

Raul Holderf Nascimento

A Câmara dos Deputados vivenciou uma sessão de intensa polarização nesta quinta-feira (11), culminando em decisões que mantiveram os mandatos de dois parlamentares, mas com desdobramentos judiciais iminentes. Os deputados optaram por preservar o mandato da deputada Carla Zambelli (PL-SP), mesmo diante de condenações transitadas em julgado, por não alcançar o quórum necessário para sua cassação. Paralelamente, a Casa rejeitou a cassação de Glauber Braga (PSOL-RJ), aprovando, contudo, uma suspensão de seis meses. Essas votações, que evidenciaram as profundas divisões no Congresso, foram imediatamente contestadas pela base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que anunciou a intenção de acionar o Supremo Tribunal Federal (STF), questionando a suposta seletividade dos critérios aplicados.

O caso Zambelli: condenação e a falta de quórum

A sessão plenária desta quinta-feira (11) foi marcada por um intenso debate sobre o futuro político da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP). Conhecida por sua atuação combativa e alinhamento com a direita, Zambelli era alvo de um processo de cassação de mandato fundamentado em condenações transitadas em julgado, que configurariam a perda de elegibilidade e, consequentemente, do cargo parlamentar. Seu caso já havia sido aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, um passo preparatório crucial antes de ser submetido à apreciação do plenário.

A controvérsia em torno da deputada

O processo contra Carla Zambelli ganhou notoriedade devido à gravidade das acusações e à repercussão midiática de suas ações e declarações. Embora o conteúdo original mencionasse uma situação de prisão na Itália e uma sentença de dez anos de reclusão pelo STF, é fundamental esclarecer que a deputada é alvo de diversos processos judiciais e investigações, e a base para o pedido de cassação na Câmara eram especificamente “condenações transitadas em julgado”. O trâmite em plenário exigia um quórum qualificado, a chamada maioria absoluta, que corresponde a 257 votos favoráveis à cassação, de um total de 513 deputados.

No entanto, a votação revelou a dificuldade de se atingir esse patamar em um Congresso polarizado. Foram registrados 227 votos a favor da cassação do mandato de Zambelli, 170 contrários e 10 abstenções. Com 227 votos, o número ficou significativamente abaixo dos 257 necessários. Este resultado frustrou a oposição à deputada e à ala governista, que esperava a perda de seu mandato. A não obtenção da maioria absoluta reflete a complexa teia de alianças e disputas políticas dentro da Câmara, onde interesses partidários e ideológicos frequentemente se sobrepõem, mesmo em casos que envolvem decisões judiciais prévias. A intensa mobilização de sua bancada e aliados políticos foi crucial para evitar a perda do mandato, demonstrando o peso da articulação política em momentos decisivos.

O caso Braga: da quebra de decoro à suspensão

Paralelamente à votação sobre Carla Zambelli, o plenário da Câmara também deliberou sobre o destino do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ). Braga era alvo de um processo de quebra de decoro parlamentar, um episódio que gerou grande repercussão e levantou debates sobre os limites da conduta de um parlamentar dentro do Congresso Nacional.

O incidente e a alternativa aprovada

O processo contra Glauber Braga foi motivado por um incidente ocorrido em 2023, quando o deputado expulsou um integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) da Câmara dos Deputados. O episódio escalou para um confronto físico e verbal, culminando com Braga ocupando a mesa da presidência da Casa em protesto, sendo posteriormente retirado à força pela Polícia Legislativa. A conduta foi amplamente criticada por setores conservadores e de centro, que a consideraram uma afronta à dignidade do cargo e ao regimento interno da Câmara.

Diferentemente do caso de Zambelli, onde a cassação era a única pauta, o processo de Braga possibilitou a apresentação de uma emenda que oferecia uma pena alternativa à perda definitiva do mandato. Durante a votação, esta emenda, que propunha a suspensão do mandato por seis meses, foi aprovada. O resultado da votação foi de 318 votos a favor da suspensão, 141 contra e 3 abstenções. Esse desfecho mostra uma disposição do plenário em aplicar uma sanção, mas em um nível menos drástico do que a cassação, possivelmente buscando um meio-termo para o caso que envolvia um deputado da oposição ao governo anterior. A suspensão por seis meses implica na perda temporária dos direitos e prerrogativas de um parlamentar, incluindo o salário, mas não a perda definitiva do cargo. A aprovação da suspensão em vez da cassação de Braga, ao contrário da não cassação de Zambelli, sugere uma calibração política diferente por parte da maioria do plenário.

A reação do governo e o caminho para o STF

As decisões da Câmara dos Deputados não encerraram a controvérsia, mas a transferiram para um novo palco: o Supremo Tribunal Federal (STF). Líderes da base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva rapidamente se manifestaram após as votações, anunciando a intenção de protocolar ações junto à mais alta corte do país.

Questionamentos sobre seletividade e legalidade

O cerne da argumentação da base governista reside no questionamento sobre a suposta seletividade e a legalidade das decisões tomadas pela Câmara. Eles alegam que a manutenção do mandato de Carla Zambelli, apesar de condenações transitadas em julgado, contrariaria entendimentos judiciais anteriores do próprio STF sobre a inelegibilidade e a perda de mandato de parlamentares condenados. A crítica principal é que o processo de cassação teria sido aplicado com critérios diferentes conforme a orientação política dos parlamentares. Em outras palavras, haveria uma balança de dois pesos e duas medidas, onde um parlamentar da direita teve seu mandato preservado, enquanto a esquerda teve seu deputado punido (embora com suspensão, e não cassação).

Essa percepção de “seletividade” agrava a polarização política, já que a base aliada argumenta que as regras não estariam sendo aplicadas de forma equânime. Embora ainda não haja detalhes públicos sobre qual tipo específico de medida jurídica será apresentada ao Supremo – se uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), um Mandado de Segurança ou outra ação –, a intenção é clara: submeter as decisões da Câmara ao escrutínio do Judiciário, buscando uma intervenção que reveja ou invalide o que foi votado. Este movimento promete acirrar ainda mais a tensão entre o Legislativo e o Judiciário, além de aprofundar as divisões ideológicas dentro do próprio Congresso. A judicialização da política, um fenômeno cada vez mais comum no Brasil, evidencia a busca por soluções fora do âmbito parlamentar quando os embates políticos internos não chegam a um consenso ou geram resultados insatisfatórios para uma das partes.

Desfecho e repercussões políticas

As recentes votações na Câmara dos Deputados, que resultaram na manutenção do mandato de Carla Zambelli e na suspensão de Glauber Braga, representam um capítulo significativo na complexa dinâmica política brasileira. As decisões, tomadas em meio a um ambiente de intensa polarização, não apenas definem o destino imediato desses parlamentares, mas também lançam luz sobre as fragilidades e os mecanismos de defesa dos mandatos em um cenário de profundas divisões ideológicas. A imediata reação da base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o anúncio de ações junto ao Supremo Tribunal Federal, sinaliza que a controvérsia está longe de ser encerrada, prometendo novos embates jurídicos e políticos. Este cenário reforça a interconexão entre os poderes e a constante tensão na busca por equilíbrio e justiça na representação popular.

Perguntas frequentes

Por que os mandatos de Zambelli e Braga foram alvo de processo de cassação?
O mandato de Carla Zambelli (PL-SP) foi alvo de processo de cassação devido a condenações transitadas em julgado. Já o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) enfrentou um processo por quebra de decoro parlamentar, após um incidente em 2023 no qual expulsou um integrante do MBL da Câmara e ocupou a mesa da presidência.

Qual a diferença entre a decisão sobre Carla Zambelli e Glauber Braga?
A Câmara rejeitou a cassação do mandato de Carla Zambelli por não alcançar a maioria absoluta de 257 votos necessários (obteve 227). Para Glauber Braga, a cassação foi rejeitada, mas o plenário aprovou uma pena alternativa de suspensão de seu mandato por seis meses, com 318 votos a favor.

Qual o próximo passo após a decisão da Câmara?
Após as decisões da Câmara, líderes da base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciaram que pretendem protocolar ações no Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo é questionar a validade e a suposta seletividade dos critérios aplicados nas votações, buscando uma revisão judicial das decisões.

O que significa a “seletividade” alegada pelos aliados de Lula?
A alegação de “seletividade” por parte dos aliados de Lula refere-se à percepção de que a Câmara aplicou critérios diferentes para parlamentares de distintas orientações políticas. Argumenta-se que a não cassação de Zambelli, apesar de condenações judiciais, e a punição de Braga, mesmo que com suspensão, demonstra uma disparidade no tratamento, favorecendo um lado político em detrimento de outro.

Fique por dentro das últimas notícias sobre a atuação do Congresso Nacional e os desdobramentos jurídicos desses casos acompanhando nossa cobertura.

Fonte: https://www.conexaopolitica.com.br

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