A recente aprovação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul marca um momento histórico para o bloco sul-americano, abrindo portas para um dos maiores pactos de livre comércio do planeta. Com um mercado combinado que supera 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) somado de US$ 22,4 trilhões, o pacto projeta-se como um divisor de águas nas relações econômicas internacionais. Embora a assinatura esteja prevista para janeiro, as discussões sobre seus impactos já movimentam o cenário político e econômico. Analistas apontam que, além de redefinir as relações com a Europa, este acordo estabelece um precedente crucial para a busca de novas parcerias estratégicas em regiões como a Ásia e o Oriente Médio, consolidando a posição do Mercosul no tabuleiro global.
Abertura para um gigante global e seus desafios iniciais
Um mercado colossal e as expectativas do governo
A celebração da aprovação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul ecoa nas esferas governamentais sul-americanas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a magnitude da decisão, classificando-a como o prelúdio de um dos maiores acordos de livre comércio do mundo. A dimensão combinada dos mercados envolvidos – um total de 718 milhões de pessoas e um PIB somado que alcança os impressionantes US$ 22,4 trilhões – justifica o otimismo. Embora o pacto esteja previsto para ser assinado no dia 17 de janeiro, suas ramificações já são amplamente discutidas.
O vice-presidente Geraldo Alckmin reforçou essa perspectiva, sublinhando que o acordo tem o potencial de impulsionar significativamente os investimentos no Mercosul. Em sua visão, a formalização do tratado não apenas fortalece o multilateralismo nas relações comerciais, mas também promete facilitar o comércio de produtos a custos mais competitivos e com padrões de qualidade elevados. A expectativa geral é que a indústria europeia seja uma das grandes beneficiadas, enquanto o agronegócio sul-americano desponta como o principal setor a colher os frutos da liberalização comercial.
Entraves para o agronegócio brasileiro no curto prazo
Apesar do entusiasmo, vozes mais cautelosas apontam para desafios iniciais, especialmente para a agricultura brasileira. Analistas apontam que o cenário inicial não será tão favorável quanto se desejaria, por diversas razões. Primeiramente, muitos produtos agrícolas ainda estarão sujeitos a cotas de importação, limitando o volume de acesso ao mercado europeu.
Em segundo lugar, foi destacado que, nos últimos dias do ano anterior, a União Europeia implementou salvaguardas adicionais em relação à questão agrícola. Essas medidas, segundo especialistas, são ainda mais restritivas, dificultando ainda mais o acesso de determinados produtos sul-americanos ao mercado europeu. A complexidade e a delicadeza envolvidas no processo são ressaltadas, indicando que a transição para um livre comércio pleno no setor agrícola pode ser mais gradual e desafiadora do que o esperado.
Detalhes do pacto e a promessa de expansão comercial
Eliminação de tarifas e benefícios para a indústria
Um dos pilares do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul é a eliminação gradual das tarifas alfandegárias, uma medida que promete reconfigurar profundamente o panorama do comércio bilateral. O tratado prevê uma redução progressiva das tarifas sobre a vasta maioria de bens e serviços. O Mercosul, por exemplo, compromete-se a zerar as tarifas sobre 91% dos bens europeus em um período de até 15 anos. Por outro lado, a União Europeia eliminará as tarifas sobre 95% dos produtos oriundos do Mercosul em até 12 anos.
Essa liberalização tarifária representa um ganho imediato para diversos setores da indústria. Produtos industriais específicos terão tarifa zero desde o início da implementação do acordo, beneficiando segmentos como máquinas e equipamentos, automóveis e autopeças, produtos químicos, e o promissor setor de aeronaves e equipamentos de transporte. Tal medida visa estimular a competitividade e a integração das cadeias produtivas entre os dois blocos, gerando oportunidades para empresas e consumidores.
Sensibilidade agrícola e a agenda ambiental
No que tange aos produtos agrícolas considerados sensíveis, o acordo estabelece um sistema de cotas. Isso significa que itens como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol poderão ser exportados sem tarifas até um determinado limite de volume. Ultrapassado esse teto, as tarifas de importação serão novamente aplicadas. Para a União Europeia, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil. No cenário inverso, para os produtos europeus importados pelo Mercosul, as cotas podem chegar a 9% dos bens ou 8% do valor.
Um ponto de suma importância e alinhado às preocupações globais é a vinculação do acordo a critérios ambientais rigorosos. Produtos beneficiados pelo tratado não poderão estar associados a desmatamento ilegal. Além disso, o contrato prevê a suspensão das condições preferenciais caso haja qualquer violação do Acordo de Paris, reforçando o compromisso de ambas as partes com a sustentabilidade e a luta contra as mudanças climáticas.
O impacto além das fronteiras europeias
Apesar dos desafios pontuais, o acordo com a União Europeia é visto por especialistas como um marco que transcende a relação bilateral. Observa-se que um acordo negociado com tamanha intensidade, detalhe e ao longo de tanto tempo, estabelece um precedente valioso. Argumenta-se que essa robustez pode despertar o interesse de outras grandes nações e regiões em negociar pactos comerciais com o Mercosul. Países da Ásia, como a Índia, e nações do Oriente Médio, por exemplo, poderiam ver no sucesso do tratado UE-Mercosul um modelo e um incentivo para buscar seus próprios acordos com o bloco sul-americano. Essa perspectiva aponta para uma ampliação da influência e do alcance comercial do Mercosul em escala global.
Balança comercial e o caminho para a formalização
O panorama atual do comércio bilateral
Antes mesmo da plena implementação do acordo, as relações comerciais entre o Brasil e a União Europeia já demonstram volume significativo. Entre janeiro e dezembro de 2025, as exportações brasileiras para o bloco europeu totalizaram US$ 49,8 bilhões, registrando um aumento de 3,2% em comparação com o ano anterior. No mesmo período, as importações brasileiras provenientes da UE atingiram US$ 50,3 bilhões, o que representa um crescimento de 6,4%.
Os principais itens vendidos pelo Brasil ao bloco europeu incluem óleos brutos de petróleo, café não torrado, farelo de soja, minérios de cobre e soja em grão. Por outro lado, os medicamentos lideraram as compras brasileiras da União Europeia, evidenciando a diversidade e a complementaridade das trocas comerciais. A expectativa é que, com a eliminação gradual das tarifas e o ambiente de maior previsibilidade, esses números possam ser ainda mais potencializados, beneficiando tanto o agronegócio quanto a indústria de ambos os lados.
Próximos passos para a concretização do acordo
Apesar da aprovação política e do otimismo gerado, a concretização definitiva do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul ainda depende de etapas cruciais. É imperativo que o pacto receba a aprovação do Parlamento Europeu, que representa os cidadãos dos 27 países membros do bloco, para que suas cláusulas possam ser implementadas. Da mesma forma, nos países do Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – o acordo necessita da ratificação pelos respectivos Congressos ou parlamentos nacionais. A prática comum indica que os países sul-americanos deverão aguardar o aval final dos europeus para então procederem com suas próprias assinaturas e formalizações, garantindo que o tratado entre em vigor em todas as suas dimensões e potencialidades.
Conclusão
O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul representa um marco ambicioso com o potencial de redefinir as dinâmicas econômicas de ambos os blocos. Com a promessa de um mercado gigantesco e a gradual eliminação de tarifas, ele pavimenta o caminho para um aumento substancial no comércio e nos investimentos, beneficiando setores chave como a indústria e o agronegócio. Contudo, os desafios iniciais para a agricultura sul-americana e as rigorosas salvaguardas ambientais exigirão atenção e adaptação. Mais do que um pacto bilateral, este acordo estabelece um precedente estratégico, sinalizando ao mundo a capacidade do Mercosul de negociar tratados complexos e abrindo a porta para a construção de novas e promissoras parcerias comerciais com economias emergentes da Ásia e do Oriente Médio, solidificando sua posição no cenário geopolítico global.
Mantenha-se informado sobre os desdobramentos deste marco comercial e suas repercussões na economia global.
Fonte: https://jovempan.com.br