agosto 12, 2026

A doutrina Monroe e a política externa de Trump na América Latina

Legenda da foto, O governo Trump já fez vários acenos ao legado da Doutrina Monroe

Em 1823, um marco significativo moldava as relações internacionais no continente americano: a proclamação da Doutrina Monroe. Concebida para salvaguardar a soberania das recém-independentes nações latino-americanas contra a recolonização europeia, essa diretriz diplomática se tornou, ao longo de quase dois séculos, um pilar fundamental da política externa dos Estados Unidos. Sua essência, resumida na máxima “América para os americanos”, transcendia o tempo, sendo reinterpretada e adaptada a diversos contextos geopolíticos, desde a expansão territorial estadunidense até a Guerra Fria. Recentemente, a doutrina Monroe ressurgiu com força no cenário global, especialmente sob a administração de Donald Trump, que a abraçou como um princípio orientador para suas ações na América Latina, gerando debates e reflexões sobre sua atual relevância e implicações para a soberania regional.

As raízes históricas e a evolução da doutrina Monroe

A Doutrina Monroe, que teve sua origem no século XIX, é mais do que uma mera diretriz política; ela é um reflexo das aspirações e temores de uma jovem nação emergente no cenário mundial. Para compreender sua ressonância na política externa contemporânea, é essencial revisitar seus fundamentos e as múltiplas camadas de interpretação que adquiriu ao longo do tempo.

O nascimento em 1823

A 2 de dezembro de 1823, o presidente James Monroe, em sua mensagem anual ao Congresso, apresentou os princípios que ficariam conhecidos como a Doutrina Monroe. O contexto era de profunda mudança: a maioria das colônias espanholas e portuguesas na América Latina havia conquistado sua independência, e havia um temor real de que as potências europeias da Santa Aliança (Prússia, Áustria e Rússia, com o apoio da França) pudessem intervir para restaurar o domínio monárquico no hemisfério ocidental. A Grã-Bretanha, interessada em manter seus novos mercados na América Latina, havia inclusive proposto uma declaração conjunta contra a intervenção europeia, mas o então secretário de Estado, John Quincy Adams, preferiu uma declaração unilateral dos EUA.

Os pilares da doutrina eram claros:
1. Não-colonização: O continente americano não estava mais aberto à colonização europeia.
2. Não-intervenção: As potências europeias não deveriam interferir nos assuntos das nações americanas, e, em contrapartida, os EUA não interfeririam nos assuntos europeus.
3. Distinção de sistemas: Qualquer tentativa europeia de estender seu sistema político (monarquia) a qualquer parte do hemisfério seria vista como uma ameaça à paz e segurança dos EUA.

No início, a doutrina carecia de poder militar para ser efetivamente imposta, mas serviu como uma poderosa declaração de intenções. Ela marcou o primeiro passo de Washington na delimitação de uma esfera de influência própria, um conceito que se aprofundaria nas décadas e séculos seguintes, transformando a América Latina em um foco constante de atenção e, por vezes, de intervenção dos Estados Unidos.

Reinterpretações e o corolário de Roosevelt

A interpretação da Doutrina Monroe não permaneceu estática. Ao longo do século XIX, ela foi invocada para justificar a expansão territorial dos EUA, o conceito de Destino Manifesto e a intervenção em conflitos regionais, como a Guerra Mexicano-Americana. Contudo, foi no início do século XX que a doutrina assumiu sua forma mais intervencionista e controversa, com o Corolário Roosevelt.

Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt declarou que, em casos de “malfeitos crônicos” ou “impotência” por parte das nações latino-americanas em honrar suas dívidas ou manter a ordem, os Estados Unidos teriam o direito de exercer um “poder de polícia internacional” no hemisfério. Isso transformou a doutrina de um escudo defensivo em uma licença para a intervenção militar e econômica. Os EUA passaram a intervir em Cuba, Panamá, Nicarágua, Haiti e República Dominicana, frequentemente sob o pretexto de estabilidade e proteção de interesses americanos. Essa política, conhecida como “Big Stick” (Grande Porrete), gerou ressentimento profundo e duradouro na América Latina, alimentando a percepção de Washington como uma potência hegemônica e intervencionista.

A Doutrina Monroe persistiu durante a Guerra Fria, sendo utilizada para justificar a oposição aos movimentos socialistas e comunistas na região, frequentemente rotulados como “influência externa” soviética. Intervenções no Chile, Nicarágua, Guatemala e Cuba foram em parte alicerçadas nessa lógica, perpetuando o legado de desconfiança e intervenção na política externa americana para a América Latina.

A ressurreição da doutrina no governo Trump

Apesar de ter sido formalmente “arquivada” por algumas administrações anteriores – por exemplo, o secretário de Estado John Kerry em 2013 declarou que “os dias da Doutrina Monroe acabaram” –, ela ressurgiu de forma contundente sob a presidência de Donald Trump. Sua administração não apenas a evocou, mas a reposicionou como uma ferramenta explícita de sua política externa para a região.

Uma nova era de hegemonia americana

A ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos trouxe consigo a retórica do “America First” (América Primeiro), que, embora focada domesticamente, tinha profundas implicações para as relações internacionais. Para a América Latina, isso significou um retorno a uma postura mais assertiva e, para muitos críticos, unilateralista. A Doutrina Monroe foi explicitamente mencionada por altos funcionários da administração Trump, incluindo o então secretário de Estado Mike Pompeo, como um princípio-chave na abordagem dos EUA para o hemisfério. A menção, muitas vezes associada à necessidade de combater influências externas e proteger a segurança nacional americana, sinalizava um endosso claro a uma visão hegemônica e de esfera de influência.

A administração Trump expressou abertamente que a China e a Rússia representavam ameaças à estabilidade e à segurança do hemisfério ocidental, ecoando o temor original da doutrina em relação a potências europeias. Essa retórica sugeria que a presença econômica e política de Pequim e Moscou na América Latina era uma forma de “colonização” moderna ou de “intervenção” inaceitável, necessitando de uma resposta enérgica por parte dos EUA. A visão era clara: a América Latina era, e deveria permanecer, a “zona de influência” natural e exclusiva dos Estados Unidos.

Foco em Venezuela, Cuba e Nicarágua

A aplicação mais visível da Doutrina Monroe sob Trump concentrou-se nos governos de Venezuela, Cuba e Nicarágua. Esses três países, rotulados como a “troika da tirania” por John Bolton, ex-Conselheiro de Segurança Nacional, tornaram-se alvos de intensas pressões diplomáticas, econômicas e, em alguns casos, até de ameaças de ação militar.

No caso da Venezuela, a administração Trump liderou uma campanha internacional para isolar o regime de Nicolás Maduro, reconhecendo Juan Guaidó como presidente interino e impondo sanções severas à indústria petrolífera e a funcionários do governo. A retórica frequentemente invocava a necessidade de restaurar a democracia e combater a “influência maligna” de Cuba e da Rússia no país, enquadrando a crise venezuelana dentro da ótica de uma ameaça à segurança hemisférica.

Para Cuba, as políticas de flexibilização da administração Obama foram revertidas, com o endurecimento do embargo e a reclassificação do país como “patrocinador estatal do terrorismo”. A Nicarágua também enfrentou sanções e críticas devido à repressão de protestos e violações de direitos humanos. Em todos esses casos, a Doutrina Monroe foi utilizada como justificativa para uma postura de liderança (e, para alguns, de ingerência) dos EUA, com o objetivo de moldar os destinos políticos desses países para alinhar com os interesses e valores de Washington.

Impacto e legado na América Latina

A Doutrina Monroe, em suas várias encarnações, deixou um legado complexo e muitas vezes doloroso na América Latina. Ela consolidou uma dinâmica de poder assimétrica, onde os Estados Unidos se posicionaram como o hegemônio regional, e as nações latino-americanas frequentemente se viram em uma posição de dependência ou subjugação. As intervenções militares e econômicas, justificadas pela doutrina, resultaram em desestabilização política, ressentimento e um profundo questionamento da legitimidade da liderança americana.

O ressurgimento da doutrina sob o governo Trump reacendeu velhos temores na região. Enquanto alguns governos conservadores podem ter visto a postura de Washington como um apoio contra regimes considerados autoritários, muitos outros países e setores da sociedade civil latino-americana encararam a revitalização da Doutrina Monroe como um retrocesso às políticas imperialistas do passado. A retórica de “América para os americanos”, quando pronunciada por Washington, muitas vezes foi interpretada como “América para os EUA”, sublinhando a percepção de que a soberania das nações latinas ainda é condicional.

Em última análise, a história da Doutrina Monroe é a história da relação entre os Estados Unidos e a América Latina: uma relação marcada por assimetrias, aspirações conflitantes e uma busca contínua por equilíbrio entre a autonomia regional e a influência da potência do norte. Mesmo dois séculos após sua proclamação, sua sombra continua a influenciar os debates sobre geopolítica, soberania e o futuro da integração hemisférica, provando que algumas ideias, por mais antigas que sejam, mantêm um poder duradouro de moldar a realidade internacional.

Para aprofundar a compreensão sobre o impacto das políticas externas dos EUA na América Latina, explore mais análises e reportagens sobre a história e os desafios contemporâneos da região.

Fonte: https://www.bbc.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

A agência espacial norte-americana, NASA, deu início à fase final da contagem regressiva para um dos lançamentos mais aguardados pela…

agosto 11, 2026

O São Paulo conquistou um empate valioso de 1 a 1 contra o Bolívar na altitude desafiadora de La Paz,…

agosto 11, 2026

Um único bilhete de aposta simples, preenchido na cidade de Alvorada D’Oeste, Rondônia, tornou-se o grande vencedor do Concurso 3.043…

agosto 11, 2026

Em meio à efemeridade das discussões políticas e à busca incessante por novidades, a aguardada adaptação cinematográfica de “A Odisséia”…

agosto 11, 2026

Comemorando um marco de quase 30 anos em 2026, o sistema eleitoral brasileiro, centrado na urna eletrônica, representa uma das…

agosto 11, 2026

Em 1823, um marco significativo moldava as relações internacionais no continente americano: a proclamação da Doutrina Monroe. Concebida para salvaguardar…

agosto 11, 2026