Em um pronunciamento histórico, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, admitiu publicamente pela primeira vez a ocorrência de “milhares” de mortes durante os recentes protestos no Irã que varreram o país. A declaração, feita em meio a uma profunda crise econômica e social, marca um ponto de inflexão na narrativa oficial sobre os levantes populares. Khamenei, que detém a palavra final em todos os assuntos de Estado, utilizou a ocasião para intensificar suas críticas aos Estados Unidos e, especificamente, ao ex-presidente Donald Trump, a quem classificou de “criminoso” pelas supostas incitações aos manifestantes. A onda de insatisfação popular, desencadeada por questões econômicas, escalou para confrontos que deixaram um rastro de vítimas e danos significativos em diversas cidades iranianas, refletindo a crescente tensão interna.
A inédita admissão do líder supremo
Em um sábado de declarações contundentes, o aiatolá Ali Khamenei abordou a delicada questão dos protestos que abalaram o Irã nos últimos meses. Pela primeira vez, o líder supremo reconheceu publicamente que os levantes resultaram em “milhares” de mortes, uma admissão que contrasta com a postura inicial do regime, que frequentemente minimiza ou culpa agentes externos por distúrbios internos. A declaração de Khamenei surge em um contexto de intensa pressão internacional e relatos de organizações de direitos humanos que apontam para um número substancialmente alto de vítimas. De acordo com uma ONG, o número de mortos nos protestos teria ultrapassado 3.400, indicando a gravidade da repressão e a extensão da violência.
A fala do aiatolá não se limitou ao reconhecimento das fatalidades, mas também incluiu uma forte retórica contra as potências ocidentais. Khamenei reiterou a visão de que os Estados Unidos buscam dominar os recursos econômicos e políticos do Irã, percebendo os protestos como um instrumento para desestabilizar o país e enfraquecer o regime teocrático. Essa perspectiva reforça a narrativa de longa data do governo iraniano de que as manifestações são orquestradas por inimigos externos, em vez de serem um reflexo da insatisfação popular genuína com as políticas internas e a situação econômica.
Acusações contra os Estados Unidos
No cerne de sua declaração, Ali Khamenei dirigiu duras críticas ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O líder supremo iraniano classificou Trump como um “criminoso”, acusando-o diretamente de incitar os manifestantes e de ter desempenhado um papel ativo na escalada da violência. “Nessa revolta, o presidente dos EUA fez declarações pessoalmente, encorajou os manifestantes a prosseguirem e disse: ‘Nós os apoiamos, nós os apoiamos militarmente'”, afirmou Khamenei, sublinhando a percepção de interferência estrangeira.
Para Khamenei, a responsabilidade pelas “vítimas e pelos danos” e pelas “acusações contra a nação iraniana” recai sobre o ex-presidente americano. Ele descreveu os manifestantes como “soldados rasos” dos Estados Unidos, sugerindo que muitos foram manipulados ou agiram sob influência externa. O líder supremo foi além, alegando que os envolvidos nos protestos destruíram mesquitas e centros educacionais, além de “ferir pessoas, e matar milhares delas”, uma acusação que busca deslegitimar a causa dos manifestantes e justificar a resposta do Estado. Essa retórica visa consolidar o apoio interno ao regime, pintando os oponentes como inimigos da nação e aliados de potências estrangeiras hostis.
O epicentro da crise: Deterioração econômica e descontentamento social
A onda de protestos que começou em 28 de dezembro e se espalhou por todo o Irã foi catalisada por uma profunda crise econômica que afeta a população de forma severa. A deterioração das condições de vida serviu como estopim para a insatisfação latente contra o regime dos aiatolás. Em um período de apenas um ano, a moeda local, o rial, sofreu uma desvalorização drástica de 56% em relação ao dólar americano, corroendo o poder de compra dos cidadãos e exacerbando as dificuldades financeiras.
Essa desvalorização cambial teve um impacto direto e devastador sobre o custo de vida. Os preços dos alimentos, um item essencial e sensível, registraram um aumento médio alarmante de 72%. Tal incremento tornou produtos básicos inacessíveis para uma parcela significativa da população, aprofundando a pobreza e a insegurança alimentar. As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, intensificadas durante a administração Trump após a retirada do acordo nuclear iraniano, agravaram ainda mais a situação, limitando o acesso do Irã aos mercados internacionais e aos recursos financeiros. A combinação desses fatores criou um cenário de desespero econômico que se transformou em descontentamento político e social.
A escalada dos protestos e a resposta do regime
Inicialmente, os protestos tiveram como foco a capital, Teerã, onde uma greve de comerciantes no principal mercado da cidade marcou o início da mobilização. O descontentamento com a inflação e a desvalorização da moeda rapidamente se espalhou, e os atos que começaram como manifestações econômicas evoluíram para críticas mais amplas ao governo e ao sistema teocrático. As ruas se tornaram palco de confrontos cada vez mais intensos, com manifestantes expressando sua frustração e desafiando a autoridade do Estado.
A escalada da violência foi evidente em diversas ocasiões. Houve relatos de manifestantes atirando pedras contra as forças policiais, que, por sua vez, responderam com força letal. A imagem de um policial disparando contra a multidão em um dos protestos simboliza a brutalidade da repressão e a determinação do regime em conter os levantes. A resposta do governo iraniano foi caracterizada por prisões em massa, uso de força excessiva e bloqueio de serviços de internet para dificultar a organização e a comunicação entre os manifestantes. A disparidade entre a versão oficial e os relatos independentes sobre o número de vítimas e a natureza dos protestos sublinha a complexidade e a polarização da situação interna no Irã.
Reações internacionais e a postura de Donald Trump
Os comentários de Ali Khamenei, nos quais admitiu as mortes e criticou Trump, surgiram em um momento de aparente mudança na retórica do então presidente americano. Um dia antes das declarações de Khamenei, Trump havia adotado um tom notavelmente conciliatório. Ele afirmou que “o Irã cancelou o enforcamento de mais de 800 pessoas” e acrescentou: “Respeito muito o fato de terem cancelado”. Essa declaração, que não foi acompanhada de detalhes sobre com quem Trump teria conversado no Irã para confirmar o cancelamento das execuções, foi interpretada por muitos como um sinal de recuo de uma possível intervenção militar.
A mudança de tom de Trump contrastava com suas ameaças anteriores. Dias antes, o ex-presidente havia advertido os iranianos de que “a ajuda está a caminho” e que seu governo “agiria de acordo” se a “matança de manifestantes” continuasse. Essa postura ambígua e, por vezes, contraditória, gerou incerteza sobre a estratégia dos EUA em relação ao Irã. A retórica de “pressão máxima” da administração Trump, que combinava sanções econômicas severas com ameaças militares veladas, manteve a tensão em níveis elevados, mas a sugestão de um cancelamento de execuções pode ter indicado uma tentativa de abrir um canal de diálogo ou, no mínimo, aliviar a escalada.
A diplomacia da retórica e o cenário de tensões
A oscilação na retórica de Donald Trump em relação ao Irã reflete a complexa dinâmica da política externa americana e a busca por influência em uma região volátil. As ameaças de “agir de acordo” se a violência contra os manifestantes persistisse podiam ser interpretadas como um aviso de retaliação militar ou de imposição de novas sanções. Contudo, a posterior menção ao cancelamento de execuções, mesmo que sem confirmação independente, abriu uma fresta para a possibilidade de uma abordagem menos confrontacional.
Essa “diplomacia da retórica” de Trump, caracterizada por mensagens fortes e imprevisíveis, tinha múltiplos propósitos. Por um lado, visava reforçar a pressão sobre o regime iraniano, incentivando a população a se manifestar contra ele. Por outro lado, podia servir como uma tentativa de se posicionar como um defensor dos direitos humanos, mesmo que a política de sanções tivesse um impacto direto sobre a população iraniana. O cenário de tensões entre os dois países permaneceu elevado, com o Irã rejeitando qualquer interferência externa e os EUA mantendo sua posição de condenar as ações do regime iraniano e seu programa nuclear. A admissão de Ali Khamenei sobre as mortes nos protestos adiciona mais uma camada de complexidade a essa relação já conturbada.
Conclusão
A admissão de “milhares” de mortes por Ali Khamenei nos protestos do Irã representa um momento significativo na política iraniana, revelando a escala da repressão e a profundidade do descontentamento social. Embora o líder supremo tenha utilizado a oportunidade para reforçar a narrativa de interferência estrangeira, especialmente dos Estados Unidos, a declaração valida, em parte, os relatos de organizações de direitos humanos sobre a brutalidade da resposta do regime. A crise econômica, com a desvalorização da moeda e o aumento estratosférico dos preços dos alimentos, permanece como o principal combustível para a insatisfação popular, que se transformou de protestos localizados em um movimento nacional de desafio. O Irã continua a ser um ponto focal de tensões geopolíticas, com sua estabilidade interna e as relações com potências globais sob constante escrutínio.
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Fonte: https://g1.globo.com